jmj1
Também aconteceu que o público aumentou à medida que se aproximava o domingo, o que deixou a cidade à beira do colapso perante uma multidão proveniente de todo o mundo e de todo o enorme Brasil. Com a praia de Copacabana como ponto central da JMJ, perante a suspensão da Vigília e Missa de Envio no Campus Fidei por causa da chuva que tinha caído, os peregrinos disfrutaram de cada trajeto de quatro quilómetros que Francisco realizava de papamóvel desde o Forte de Copacabana- situado entre Copacabana e Ipanema - e o início da praia, bem perto do Pão de Açucar. Os fiéis também gostaram de ver passar por outras ruas do Rio como quando foi desde a catedral de São Sebastião na quinta ou para o Teatro Municipal no sábado.

No caminho, o Papa saudou e abençoou crianças e bebés, recebeu centenas de bandeiras lançadas pelo público, cartas, imagens de Nossa Senhora, viu tentativas de pessoas de ultrapassar a segurança que queriam dar-lhe a mão, e em duas ocasiões bebeu mate que lhe ofereceram desde detrás das barreiras.

Na sexta, dia da Via Sacra, desceu em duas ocasiões do papamóvel, a primeira para abençoar a imagem de São Francisco de Asís, e a segunda para apertar a mão a paralíticos. Nesse dia o público estimado era de um milhão e meio de pessoas; já para o domingo, dia final da JMJ, subiu para 3,2 milhões segunda a Prefeitura do Rio de Janeiro. Entre eles 1500 Bispos e 12000 sacerdotes. O sol carioca, que acabou por aparecer no final, contribuiu a uma maior afluência de fiéis.

jmj2
O Evangelho é para todos
  
  " A Fé é uma chama que se trona mais viva à medida que se partilha"

Na Missa final, o Papa inciou a sua homília em português para depois passar para o espanhol e retomar mais tarde o português, o que foi uma constante do Sumo Pontífice nestes dias. Sintetizou a sua mensagem que veio trazer aos jovens do mundo em três ideias: "Ide, sem medo, para servir". Francisco disse que a JMJ foi uma ocasião para "experimentar a beleza de encontrar Jesus e sentir a alegria da Fé", o que deve animar os jovens a "transmitir esta experiência aos outros ". "A Fé é uma chama que se torna mais vida à medida que se partilha. O mandato de partilhar a experiência da Fé, dar testemunho da Fé, anunciar o Evangelho, é um mandato que não nasce da vontade do domínio ou de poder, mas sim da força do amor", expressou.

Nesta linha insistiu na necessidade de levar a mensagem de Cristo, não só aos mais próximos e aos que consideramos melhores. "O Evangelho não é para alguns mas para todos. Não é só para os que nos parecem mais próximos, mais receptivos, mais acolhedores. É para todos. Não tenham medo de ir e levar Cristo a qualquer ambiente, até às periferias existenciais, também a quem parece mais longe, mais indiferente. O Senhor procura a todos, quer que todos sintam o calor da sua misericórdia e do seu amor".

Dirigindo-se aos jovens reunidos, apelou a que se comprometessem com alegria e na necessidade que existe na Igreja, e do próprio Papa, neles, aos que pediu generosidade com Cristo e em "não ter medo" para dar testemunho do Evangelho. "A Igreja precisa de vocês, do entusiamos, a criatividade e a alegrias que vos caracteriza. O Papa precisa de vocês".

A Evangelização é "levar a força de Deus para arrancar e arrasar o mal e a violência; para destruir e destruir as barreiras do egoísmo, a intolerância e o ódio; para edificar um mundo novo". "Queridos jovens, Jesus Cristo conta convosco. A Igreja conta convosco. O Papa conta convosco", finalizou.

jmj3
"Suar a camisola"
  
 "Sei que não querem viver na ilusão de uma liberdade sem substância que se deixa arrastar pela moda e pelas conveniências do momento" 

A suspensão das atividades nos Campus Fidei obrigou a reprogramar a agenda, que se passou inteiramente para Copacabana. Para sábado, estabeleceu-se uma linha de peregrinação de 9,5 quilómetros, entre a Estação Central e a praia top da cidade, e ao início da noite realizou-se uma breve cerimónia com o Papa, precedida por espectáculos de música, onde os Bispos se animaram a treinar o flashmob da JMJ, e pelos testemunhos de quatro jovens que passaram por situações difíceis na sua vida.

No discurso, perante três milhões de pessoas que já acampavam em Copacabana, o Papa utilizou a suspensão da vigília no Campus Fidei para realçar o seu pensamento. "Não estaria o Senhor a quere dizer-nos que o verdadeiro campo da Fé, o verdadeiro campus fiei, não é um lugar geográfico mas nós?". Francisco falou do campo como um lugar de semente, como lugar de treino e como obra de construção. "Queridos jovens, quando aceitamos a palavra de Deus, então convertemo-nos no Campus Fidei. Por favor, deixem que Cristo e a sua palavra entrem na vossa vida, que germine e cresça".

A alocução, muito directa, simples e profunda ao mesmo tempo profunda, clara e muito próxima dos jovens, foi especialmente agradável aos cariocas pela linguagem e expressões utilizadas pelo Papa. "Sempre pode haver espinhos e pedras na vida, mas peço-vos que façam um pedaço de boa terra nos corações. Vão ver como germina". Os jovens não podem ser "cristãos a meio tempo, cristãos de fachada. Sei que não querem viver na ilusão de uma liberdade sem substância que se deixa arrastar pela moda e pelas conveniências do momento."

Mais tarde utilizou o futebol (no Brasil ocorrerá o Campeonato do Mundo no próximo anos) para recordar aos peregrinos a importância de treinarem e "enfrentar sem medo as situações da vida". "Jesus oferece-nos mais do que o Campeonato do Mundo! Oferece-nos a possibilidade de uma vida e fecunda e feliz". "Estes são os treinos para seguir Jesus: a oração, os sacramentos e a ajuda aos outros, o serviço aos outros", acrescentou o Papa.

Francisco teve de deter-se em várias ocasiões perante os vivas de um público que o escutava absorto. "Quando o nosso coração é uma terra boa que recebe a palavra de Deus, quando sua a camisola, tentando viver como cristãos, experimentamos algo maior: nunca estamos sós, formamos parte de uma família de irmãos que percorrem o mesmo caminho: somos parte da Igreja. Somos parte da Igreja, mais ainda, convertemo-nos em construções da Igreja e protagonistas da história. Rapazes e raparigas, por favor, não se metam na cauda da história. Sejam protagonistas. Joguem ao ataque. Chutem para a frente, construam um mundo melhor", concluiu.

jmj4
O Cristianismo "revitaliza o pensamento"
  
 "O Cristianismo combina a transcendência e a encarnação; revitaliza sempre o pensamento e a vida perante a frustração e o desencanto" 

Sábado incluiu, além disso, um encontro no Teatro Municipal, onde o Papa se dirigiu aos representantes da sociedade brasileira. Ao terminar, passeou com o seu papamóvel e saudou os fiéis que faziam a peregrinação desde a Estação Central até Copacabana. A imprevisibilidade de se encontrar com Francisco no trajeto levou os jovens a debruçar-se rapidamente sobre as barreiras para lhe expressar novamente o carinho ao Santo Padre.

No Teatro Municipal, o Papa pediu à classe dirigente "responsabilidade solidária para construir o futuro diálogo construtivo para enfrentar o presente". Pediu "fazer crescer a humanização integral e a cultura do encontro e da relação", porque " é a maneira cristã de promover o bem comum, a alegria de viver". "O cristianismo combina com a transcendência e a encarnação; revitaliza sempre o pensamento e a vida perante e frustração e o desencanto que invadem o coração e se propagam pelas ruas", disse Francisco.

"O futuro exige-nos uma visão humanista da economia e uma política que consiga cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evite o elitismo e erradique a pobreza. Que não falte a ninguém o necessário e que se assegure a todos a dignidade, fraternidade e solidariedade: este é o caminho a seguir". Depois afirmou a importância do diálogo para aproximar ideias e evitar violência: "Entre a indiferença e o egoísta e o protesto violento, há sempre uma opção possível: o diálogo".

jmj5
" E vós, quem quereis ser?"
  
  "Entre a indiferença e o egoísta e o protesto violento, há sempre uma opção possível: o diálogo".

Na sexta 26 a agenda marcava a Via Sacra, também em Copacabana. A espectacular representação musical e teatral das 14 estações - cada interpretação de uma estação parecia uma miniobra de teatro-, distribuídas na Avenida Atlântica de Copacabana, reuniu quase dois milhões de pessoas, em que o Papa voltou a apresentar a opção, desta vez utilizando as personagens da Paixão, na que um homem, uma mulher, deve escolher para passar para a sua vida: Pôncio Pilatos ou Simão de Cirene ou Maria.

"O que deixaram na cruz? O que deixaram na cruz, cada um de vocês? O que nos ensina para a nossa vida esta cruz?, perguntou-se Francisco. "Com a cruz, é o próprio Jesus quem se une ao silêncio das vítimas da violência humana, aos que já não podem gritar, sobretudo os inocentes e indefesos; com a cruz une-se às famílias que se encontram em dificuldade, que choram a perda dos seus filhos, ou que sofrem ao vê-los vítimas de falsos paraísos como as drogas". A cruz é um "um amor tão grande que entra no nosso pecado e perdoa, entra no nosso sofrimento e dá-nos força para o suportar".

Depois apresentou a escolha que qualquer pessoa deveria enfrentar, desde o ponto de vista da cruz e a Paixão de Cristo. A cruz "ensina-nos a ser como Simão de Cirene, que ajudou Jesus a levar esse pesado madeiro, ensina-nos a ser como Maria e as outras mulheres, que não têm medo a acompanhar Jesus até ao final, com amor e ternura". E vós, quem quereis ser?, perguntou o Papa elevando a voz. "Como Pilatos? Como Simão? Como Maria?".

Pedro Dutour