O Papa chegou ao Rio na segunda-feira 22 vindo de Roma, onde foi recebido pela presidente Dilma Rousseff e logo se deu o primeiro banho de multidão num percurso no "papamóvel". Na terça-feira descansou e na quarta-feira 24 dirigiu-se ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no estado de São Paulo, o santuário mariano maior do mundo. Ali visitou o hospital São Francisco, que trabalha com toxicodependentes e disse, entre outras coisas, que a legalização das drogas não é solução para acabar com o vício e o narcotráfico.
  
 "A fé é revolucionária; estás disposto a entrar nesta onda da revolução da fé? Só entrando, a tua vida jovem vai ter sentido e assim será fecunda" 

Entretanto, no Rio continuou a JMJ com diversas actividades, como as catequeses e os festivais, que não pararam mesmo com a chuva e o frio, à espera de receber o Papa Francisco. Na "cidade maravilhosa" era impossível não se cruzar com peregrinos de todas as partes de mundo, num clima de alegria e camaradagem, que incluía cumprimentos, cânticos, vivas ao Papa e algum intercâmbio de souvenirs. Os protestos que se registaram durante a passada Copa das Confederações de futebol brilharam pela sua ausência.

Entusiasmo contagioso

A seguir ao agradecimento das orações do Papa Bento XVI - o que provocou uma aclamação da multidão calculada num milhão e meio de pessoas -, Francisco disse em Copacabana que chegou às JMJ para se contagiar com o entusiasmo dos jovens, para não ser triste. "Hoje vim confirmar-vos na fé, a fé em Cristo vivo que habita em vós, mas vim também para ser confirmado pelo entusiasmo da vossa fé, para que a minha fé não seja triste e para contagiar-me com o vosso entusiasmo".

"Se queremos que a nossa vida tenha realmente sentido e seja plena, como vocês desejam e merecem, digo a cada um e a cada uma de vós: ‘vive a fé' e a tua vida terá um sabor novo; ‘vive a esperança' e cada dia da tua vida será iluminado e o teu horizonte não será já escuro mas luminoso; 'vive o amor' e a tua existência será como uma casa construída sobre rocha, e o teu caminho será gozoso".

O Papa advertiu os jovens que "o ter, o dinheiro, o poder podem oferecer um momento de embriaguez, a ilusão de ser feliz, mas no fim dominam-nos e levam-nos a querer ter cada vez mais, a nunca estar satisfeitos". E continua dizendo: "terminamos empanturrados mas não alimentados, e é muito triste ver uma juventude empanturrada mas débil". "A fé é revolucionária; estás disposto a entrar nesta onda da revolução da fé? Só entrando, a tua vida jovem vai ter sentido e assim será fecunda", acrescentou.

A cerimónia em Copacabana, abafada por bandeiras de centos de países e de variados guarda-chuvas, também incluiu as palavras de cinco jovens representantes dos cinco continentes a quem o Papa ofereceu um Terço, ao mesmo tempo que aproveitava uns segundos para falar e brincar com eles, e uma representação musical sobre o início da evangelização no Brasil, Além disso, o Sumo Pontífice, muito emocionado, levou consigo uma imagem da Virgem da Aparecida recebida das mãos de três "gaúchos".

Não abrandar a fé

  "Quero as dioceses em movimento, quero que se saia, quero que a Igreja saia para a rua"

Francisco terminou o dia seguramente esgotado. Porque antes teve a cerimónia da entrega das chaves da cidade do Rio de Janeiro e a bênção das bandeiras olímpicas e paralímpicas, e a visita à favela da Varginha, na zona de Manguinhos. O Papa sentiu-se muito feliz no meio dos habitantes da favela e por momentos muito divertido.

Depois ao meio-dia, esperavam-no os argentinos - 50.000 - que chegaram para seguir a JMJ no Rio. Ao estilo altissonante do Futebol, o Papa recebeu uma estrondosa ovação dos seus compatriotas na catedral de São Sebastião. Como costuma fazer, Francisco foi direito ao assunto e voltou a falar de fé.

"Por favor, não liquefaçam a fé em Jesus Cristo! Há sumo de laranja, há sumo de maçã, há sumo de banana mas, por favor, não tomem sumo de fé! A fé é sólida, não se liquefaz, é a fé em Jesus!, é a fé no filho de Deus feito Homem que me amou e morreu por mim".

Aos seus compatriotas, o Papa Francisco transmitiu-lhes a expectativa desta reunião internacional de jovens no Rio de Janeiro: "O que espero como consequência da Jornada da Juventude? Espero acção, quero acção nas dioceses, quero que se saia, quero que a Igreja saia à rua, quero que nos defendamos de tudo o que seja mundanidade, do que seja instalação, do que seja comodidade, do que seja clericalismo, do que seja estar fechados em nós mesmos: se não, se convertem numa ONG".

"E a fé em Jesus Cristo não é uma brincadeira, é algo muito sério. É um escândalo que Deus tenha vindo a fazer um de nós, é um escândalo, e que tenha morrido na cruz, é um escândalo mas é o único caminho seguro, o da cruz, o de Jesus, a encarnação de Jesus", concluiu diante de um auditório emocionadíssimo, embandeirado por milhares de bandeiras argentinas.

Confissões na Boa Vista

Na sexta-feira 26 está previsto que o Papa confesse jovens na Quinta da Boa Vista, onde foi montada uma feira vocacional, mantenha um breve encontro com jovens presos, cumprimente o Comité Organizador da JMJ e um almoço com jovens no Palácio Arcebispal São Joaquim. Para terminar, ao fim da tarde, terá lugar a Via-Sacra na praia de Copacabana.

Em tudo isto, a programação sofreu uma modificação. Por causa da chuva não está disponível o Campus Fidei onde estava marcada a vigília e a Missa final. A actividade de sábado e domingo foi transferida, finalmente, para Copacabana.

Pedro Dutour