Na edição especial de 14 de março, o diário La Nación publicou comentários e testemunhos sobre o novo Papa. Jorge Bergoglio, pastor da arquidiocese de Buenos Aires durante mais de vinte anos (primeiro como bispo auxiliar e depois como arcebispo), não é só uma personalidade pública na Argentina, que proclamou a doutrina cristã sobre assuntos de relevância moral e social. Sobretudo na capital, onde nasceu, é muito conhecido também porque se relacionou com a gente comum e podia ser visto em transportes públicos ou nas barracas (villas): zonas repletas de vivendas precárias repartidas pela cidade.

Pastor simples e austero

"Ele é como todos o conhecemos", diz Roberto Bosca. E descreve-o assim: um homem de poucas palavras, humilde, de gostos simples, com um perfil alheio aos gestos espetaculares: um homem normal. Quando os argentinos nos caraterizamos por sermos dados à importância, ele não parece importante, mas é-o"

  Um rabino descreve-o como "um homem de uma simplicidade absoluta, de uma humildade impressionante"

Guillermo Marcó, anterior porta-voz de Bergoglio, define-o como um homem "muito lúcido" assim como um grande pastor. "Tem impacto a sua proximidade com as pessoas. Visita sempre as villas; na Quintas-feira Santa lava os pés aos pobres; faz visitas às prisões, aos doentes de HIV; celebra missas na Constitución" (1), diz em declarações recolhidas no Clarín. "É irrepreensível. Na sua vida privada é muito simples e austero. Acorda todos os dias às 5.30 para rezar. As suas opções como cardeal foram continuar a fazer uma vida normal, comum". O rabino argentino Ángel Kreiman, há um ano residente em Jerusalém, faz um retrato parecido. "É um homem de uma simplicidade absoluta, de uma humildade impressionante. Todas as vezes que ligava a pedir audiência com ele, dizia-me: para que vais pedir audiência, se aqui estou? Fala comigo". Outras pessoas relatam mais histórias em que se destacam os mesmos traços. "Está sempre ao lado do povo, tem uma moral irrepreensível e uma humildade notável - declara Carlos Mraida, pastor da Igreja Batista do Centro -. Teve grandes gestos pastorais, como lavar os pés aos presos, celebrar missa em lugares muito pobres ou visitar a Villa 31". Mraid, um dos coordenadores do espaço de diálogo interreligioso Comunhão, Renovação de Evangélicos e Católicos, conhece o novo Papa dos encontros anuais desta entidade e outras reuniões do cardeal com pastores evangélicos.

Compromisso social, sem teologia da libertação

 "A sua liderança está determinada pela luta contra a pobreza, na sua obsessão contra o tráfico humano e o de droga; na sua preocupação pelos jovens" 

Também são numerosas as referências à sua preocupação pelos pobres. Nas suas visitas pastorais às paróquias da arquidiocese, não omitia as villas. "A sua liderança - diz o jornalista Carlos Pagni - está determinada pela luta contra a pobreza, que se materializou na organização dos padres que atendiam as barracas ; na sua obsessão contra o tráfico humano e o de droga; na sua preocupação pelos jovens".

Em geral, a observação de que este compromisso social é evangélico e muito longe do que propunha a teologia da libertação de cunho marxista. Pagni recorda que Bergoglio, quando era provincial da Companhia de Jesus na Argentina, retificou o rumo a que estavam a levar os liberacionistas.

Bosca escreve: "A nova sensibilidade religiosa sublinha os conteúdos humanistas da mensagem. Os teólogos da libertação tentaram-no, mas em muitos casos enfermaram de ideologia, corrompendo essa mesma mensagem. Francisco vive-o naturalmente, sem recorrer a nada mais que ao Evangelho. Na salvação cristã, a partir do mistério da encarnação, encontra-se incluído todo o homem. Com a sua simplicidade, Francisco está no meio do povo cristão de um modo diferente mas tão velho como o Evangelho".

A isso se refere também Luisa Corradini, quando revê a situação da Igreja católica no começo do novo pontificado. "No continente americano é necessário ser capaz de dar um novo alento. No sul, a fim de recuperar o terreno perdido em mãos dos evangelistas protestantes, que souberam conquistar as classes mais pobres, desorientadas pelos ensinamentos da Teologia da libertação dos anos 70 e 80".

  "O Papa Francisco conhece a virtude da caridade, mas detesta que os pobres acabem no mercado do clientelismo político"

A visão de Bergoglio nem sequer coincide com as políticas implantadas na Argentina e outros países da América Latina, refere Joaquín Morales Solá, comentarista político de La Nación. "Incitou os seus sacerdotes em Buenos Aires a meterem-se nas villas de miséria, a trabalhar com os pobres por um destino melhor e a afastá-los do risco das drogas. Francisco conhece a virtude da caridade, mas detesta que os pobres acabem no mercado do clientelismo político. ‘Essa é a prática política mais desumana que conheço, porque condena os pobres à dependência, a pedir sempre sem esperança', resumiu". Também Pagni opina que a eleição do Papa Francisco serve para "interpelar o populismo assistencialista e a razão que o alimenta: a desigualdade".

Querido por judeus e cristãos não católicos

O cardeal Bergoglio tem muito boas relações com a comunidade judaica argentina, como se deduz das citadas declarações do rabino Kreiman. O diretor do Congresso Judeu Latino-americano, Cláudio Epelman, disse: "conhecemos as suas virtudes e não temos dúvidas de que fará um grande trabalho à frente da Igreja". Outro rabino argentino, Sergio Bergman, celebrou a notícia assim no Twitter: "com profunda emoção e em oração pela designação de Bergoglio como novo Papa!" E num segundo tweet acrescentou: "Argentinos e homens e mulheres de boa vontade, como irmãos, celebramos a unidade na diversidade convocados por Francisco I".

Também manifestaram a sua satisfação representantes de outras confissões presentes na Argentina. Gregory Venables, arcebispo da Igreja Anglicana Episcopal Argentina, descreveu o Papa Bergoglio como um homem "simples, que se abre e se deixa conhecer". Acrescentou: "Conhece a realidade e fala com claridade e honestidade. Jamais o faz com chalaça ou ironia. E, além de que tem uma grande inteligência, a sua humildade permite-lhe inspirar esperança e otimismo nas pessoas." Venables acredita mesmo adivinhar por que foi eleito Bergoglio: "Suspeito que impeliu os cardeais o facto de ser um homem profundamente cristocêntrico e com uma espiritualidade íntegra".

Firme e conciliador

Pelo contrário, não houve boa sintonia entre o Card. Bergoglio e os Kirchner. A reação da presidente Cristina Fernández foi considerada tíbia na Argentina. Não foram do gosto do governo algumas declarações do cardeal sobre questões sociais como a droga.

Nos últimos anos, o atrito mais forte surgiu com a aprovação do casamento homossexual . Quando se debatia o projeto, o cardeal declarou: "não sejamos ingénuos: não se trata de uma simples luta política; é a pretensão destruidora do plano de Deus".

Pagni recorda alguns episódios: "Cristina Kirchner não poupou ao longo destes anos nenhuma afronta a Bergoglio. Alargou o tedeum a outras dioceses, tratando-o como a um governante da oposição. Quando Néstor Kirchner esteve internado, expulsou da clínica o sacerdote que o visitou em nome do cardeal. Do coração do kirchnerismo, o presidente do CELS [Centro de Estudos Legais e Sociais, ONG fundada em 1979 para combater as violações de direitos humanos sob o regime militar], Horacio Verbitsky, acusou-o em vários livros de cumplicidade com a ditadura militar. (...) Os cardeais que participaram do conclave anterior receberam uma chuva de mensagens vituperando Bergoglio para impedir a sua eleição. Eram enviadas por militantes do oficialismo".

Segundo um colaborador de Bergoglio que Pagni cita sem o identificar, o cardeal "jamais se referiu aos Kirchner, e até há alguns anos admirava-os como quadros políticos". Em palavras de "um prelado" que o jornalista não nomeia, "a comunicação é impossível porque o kirchnerismo reduz a sua visão da Igreja a categorias ideológicas".

De qualquer modo, a insistência nos desacordos entre os Kirchner e Bergoglio pode levar a criar-se a falsa imagem de que o cardeal ia sempre com o "não" pela frente em questões de interesse público. Nada mais longe da realidade. Segundo explica o diário Clarín, Bergoglio foi um apaixonado promotor da unidade dos argentinos. Por isso elogiou com agrado Cristina quando ela empregava o tom conciliador nos seus discursos, como também o reprovou quando deixava de fazê-lo.

Noutro artigo de Clarín, o Chefe do Governo da Cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri, destaca a sensibilidade e o compromisso que mostrou o cardeal Bergoglio para trabalhar lado a lado com políticos de diferente signo, durante a crise social, política e económica que atravessou a Argentina em 2002.

Um exemplo: a Secretária da Cultura da Cidade de Buenos Aires pediu ajuda a personalidades de diferentes âmbitos para que os ajudassem a impulsionar a iniciativa Cultura pela Paz." O então cardeal Jorge Bergoglio assumiu pessoalmente esse programa", explica Macri. "Os melhores conselhos provêm das atitudes exemplares que, como a sua, alentavam em nós a aceitação das virtudes do diálogo, de uma ação política de proximidade com o povo e o respeito pela unidade na diversidade".

Para terminar, o comentário de José Ignacio Lopez, que recorda Bento XVI ao falar do seu sucessor: "A Cátedra de Pedro, carregada de humanidade pelo gesto de desprendimento de um Papa que se declarou débil e entregou as suas últimas forças para abalar e perturbar a Igreja e o mundo, já não está vazia. Voltou a carregar-se de humanidade. Quem tomou o leme não é imperador nem super-herói. É o sucessor de um pescador".

Fonte: La Nación, Clarín


Constitución é uma das zonas em que se divide a grande cidade de Buenos Aires, em que fica situada a estação de caminhos de ferro com o mesmo nome. Tem um constante fluxo de pessoas em trânsito e é também local de habitação de muitos imigrantes (N.d.r. de www.aceprensa.pt)