Recriminou-se a hierarquia eclesiástica da altura por não se ter oposto frontalmente ao regime, mesmo que se deva reconhecer ter havido bispos e mais eclesiásticos que durante a ditadura fizeram todas as diligências possíveis para salvar a vida dos detidos.

Jorge Bergoglio não era bispo na altura; foi provincial dos jesuítas argentinos (superior da ordem nesse país) entre 1973 e 1079. Em Maio de 1976, a polícia do regime militar sequestrou dois jesuítas - Orlando Yorio e Francisco Jalics - que viviam e desenvolviam a sua actividade nos bairros de lata de Buenos Aires, acusando-os de serem guerrilheiros. Estiveram detidos na Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA), um dos principais centros clandestinos de detenção e tortura usados pelo regime. Os bispos - e Bergoglio, segundo ele próprio declara - trabalharam para a sua libertação, o que aconteceu passados cinco meses.

Quando Bergoglio rompeu com o governo de Nestor Kirchner, o jornalista político Horácio Verbitsky, de tendência pró-governo, acusou Bergoglio de ter denunciado os dois jesuítas, provocando assim o seu sequestro. Francisco Jalics, actualmente a residir na Alemanha, fizera já esta acusação em 1995. Nenhuma destas acusações da imprensa conduziu a qualquer imputação.

Actuação junto da "Junta"

Bergoglio contestou as acusações de que foi alvo no livro El jesuita, biografia do actual Papa publicada em 2010, obra dos jornalistas Sérgio Rubin e Francesca Ambrogetti. "Nunca acreditei - diz ele - que estivessem envolvidos em atividades subversivas, como sustentavam os seus perseguidores, e de facto não estavam. Mas, pelas relações que mantinham com alguns padres das barracas, ficavam demasiado expostos à paranoia da caça às bruxas. Como permaneceram no bairro, Yorio e Jalics foram sequestrados durante uma rusga. Na mesma noite em que soube do seu sequestro comecei a mexer-me. Quando disse que estive por duas vezes com [o ditador Jorge ] Videla e com [o comandante-em-chefe da Armada] Massera, foi por causa desses sequestros".

Bergoglio depôs há dois anos como testemunha no segundo julgamento sobre os crimes da ESMA. Aí relatou a sua atuação durante o sequestro dos dois jesuítas, apresentando pormenores sobre as diligências que junto de Videla e de Massera fez para a sua libertação.

Uma das fundadoras das Avós da Praça de Maio, Alicia Licha de la Cuadra, também o acusou de ter intervindo num caso de roubo de bebés, filhos de prisioneiras do tempo da ditadura, e pediu que o chamassem a depor. As Avós da Praça de Maio fizeram inúmeras acusações contra a atuação da hierarquia católica. Bergoglio replicou que se tratava de uma acusação caluniosa e o assunto não teve qualquer repercussão legal.

Auxílio a perseguidos

Bergoglio não era homem dado a fazer declarações, e em muitos casos pensava que o silêncio é a melhor resposta. No entanto, está no centro de alguns casos em que se procurou fazer sair do país jovens perseguidos pela ditadura.

Na edição de 14-03-2013, o jornal argentino La Nación refere que "a maior defensora da actuação de Bergoglio é Alicia Oliveira, que foi juíza durante a ditadura e advogada do Centro de Estudos Legais e Sociales (CELS). Afirma ela que "Bergoglio advertiu os sacerdotes Jalics e Yorio do perigo que corriam e que eles não lhe deram ouvidos". Oliveira assevera que Bergoglio a salvou da ditadura militar.

Outra pessoa a desmentir as acusações é Clélia Luro, que foi secretária e depois mulher de Mons. Jerónimo Podesta, o "bispo vermelho" de Avellaneda, que abandonou o seu posto episcopal para se unir a ela. Afirma ela, sobre o caso dos dois jesuítas: "É uma calúnia; Bergoglio esforçou-se por os proteger ao adverti-los do perigo" (Le Monde, 26-10-2007). Clélia Luro lembra com emoção que "Bergoglio foi o único bispo a visitar o meu marido no hospital, pouco antes da sua morte, no ano 2000". Na mesma reportagem do diário francês, lembra também que ele foi o único representante do episcopado que a 9 de Outubro de 1999 assistiu à trasladação dos restos mortais do padre Carlos Mújica para a Villa 31, o bairro da lata da capital onde trabalhou até ser assassinado por paramilitares em 1974. "É graças a Bergoglio que o meu irmão repousa entre aqueles que amava ", afirma Marta, irmã de Mújica.

Aceprensa