Luis Moreiro, jornalista do diário argentino La Nación, relatou vários pormenores do casamento da sua filha Emilia, celebrado pelo cardeal Bergoglio a pedido do noivo, Gastón, que o conhece há vários anos. A cerimónia era em La Plata, a uns 60 km da residência do arcebispo na cidade de Buenos Aires. Quando, uns dias antes, lhe telefonaram para saber a que horas deviam mandar-lhe um carro para o levar à igreja, o cardeal respondeu: "Carro? Não, eu vou no comboio de Roca". Só aceitou que o fossem buscar à estação de destino, pois receava perder-se.

Ao terminar a cerimónia, convidaram-no para sair juntamente com os noivos. "Não quis - conta Moreiro -. ‘Emilia e Gastón são as estrelas da noite. O protagonismo e todas as saudações devem ser para eles', disse em desculpa amável, e escapou-se pela porta da sacristia". E justamente antes de partir para Roma, telefonou a Gastón para lhe dar os parabéns pelo seu aniversário.

Uma sua faceta conhecida é a de ser fã do São Lourenço. Em 2008, por ocasião do centenário da fundação do clube, ofereceram-lhe uma camisola da equipa e nomearam-no "sócio centenário".

La Nación relata que há doze anos, Pilar Martínez Zuviría, de 62 anos e mãe de sete filhos, enviou uma carta ao arcebispo Bergoglio, num tom muito crítico. Em resposta, ele telefonou-lhe: "A senhora D. Pilar está? Fala o cardeal Bergoglio". Pilar recorda: "Foi um exemplo de humildade. Falou para a minha casa, disse-me que tinha lido a carta, que me agradecia os comentários, que os teria em conta e que rezasse muito por ele".

Anos mais tarde repetiu-se a história. Pilar voltou a escrever-lhe e a criticá-lo, e o cardeal voltou a responder-lhe com um telefonema pessoal em que de novo lhe pediu orações por ele. "Fiquei tão comovida - diz ela - que, tempo depois, ao pensar que as suas declarações se deturpavam nalguns sectores do jornalismo, mandei ao cardeal um terceiro texto, apoiando-o e encorajando-o a continuar: disse-lhe que se sentiria reconfortado ao pensar que Cristo também tinha sido mal interpretado. Mas nesta altura não respondeu. Isto mostra a sua prudência e humildade: vê-se que o elogio não lhe caiu bem".

Nas barracas

A jornalista Elisabetta Piqué define assim o novo Papa: "Um cardeal austero, um homem comum. Tão simples e próximo dos pobres como erudito e firme nas suas convicções". Sobre a sua austeridade, Piqué refere um episódio significativo: "Quando em 2001 foi nomeado cardeal por João Paulo II houve fiéis que queriam acompanhá-lo na cerimónia cardinalícia. Mas ele pediu que ficassem em Buenos Aires e fizessem esse donativo aos mais pobres. Também não quis comprar vestes novas: mandou arranjar as que usava o seu antecessor Antonio Quarracino".

A jornalista ficou impressionada com outros aspectos do estilo de vida de Bergoglio: nunca quis ter carro com motorista. Costumava andar de autocarro ou de metro. E quando viajava de avião da Argentina para Roma ia na classe económica. O mesmo diz Carlos Pagni: "Os sapatos que levou para Roma foram o presente da esposa de um sindicalista falecido, que não conseguiu que ele aceitasse uma passagem em primeira classe. Viajou na económica".

Apaixonado leitor de Dostoievski, Borges e de autores clássicos, acrescenta Piqué, o novo Papa tem uma "forma de falar simples, direta e humilde, que chega ao coração".

Outra reportagem de La Nación descreve como foi recebida a notícia da eleição do Papa Francisco na "Villa 21-24", o bairro de barracas na periferia de Buenos Aires. Na paróquia da Virgem dos Milagres de Caacupé conhecem bem o Papa, que esteve lá muitas vezes. Vários paroquianos recordam essas visitas. "Eu recebi os três sacramentos com Bergoglio. Quando o meu patrão me mostrou a televisão e vi a notícia, saltei e chorei de alegria", diz Lidia Valdiviesa. "No bairro, todos recordam Bergoglio a andar pelos caminhos da villa. ‘Sabe o que é a pobreza', afirma Lidia".

O sacerdote Juan Isasmendi ressalta vivamente a proximidade de Bergoglio. "É uma pessoa muito importante para o bairro. Atravessava toda a villa a caminhar sozinho, sem qualquer problema, cumprimentando as pessoas que o convidavam para entrar. Aqui estimamo-lo muito". "Se realizar uma visita como Papa a Buenos Aires, vamos obrigá-lo a vir", dizia o pároco.

João Paulo II e o Rosário

Quando em 2005 faleceu João Paulo II o cardeal Bergoglio escreveu um testemunho simples em que recorda como se decidiu a rezar todos os dias os 15 mistérios do Rosário, graças ao seu exemplo. "Se recordo bem, devia ter sido em 1985. Uma tarde fui rezar o Rosário dirigido pelo Santo Padre. Ele estava de joelhos, em frente das pessoas. O grupo era numeroso".

Bergoglio conta com simplicidade que enquanto estava a ser guiado pelo seu Pastor, começou a distrair-se. Deteve-se na figura do Papa: na sua piedade. "A sua devoção era um testemunho", diz. "Comecei a imaginar o jovem sacerdote, o seminarista, o poeta, o operário, o menino de Wadowice...na mesma posição em que estava ajoelhado nesse momento, recitando Ave-Marias umas atrás das outras. O seu testemunho tocou-me".

"Senti que este homem, escolhido para guiar a Igreja, estava a seguir o caminho para a sua Mãe do céu; um caminho iniciado na infância. E compreendi então a densidade das palavras da Virgem de Guadalupe a S. Juan Diego: ‘Não tenhas medo, não estou eu aqui que sou a tua mãe? ‘. Então entendi a presença da Virgem na vida do Papa".

"Nunca mais me esqueci deste testemunho. Daí em diante rezei sempre diariamente os 15 mistérios do Rosário".

"Aceitou-nos tal como éramos"

Camila Montero, uma ativista contra a exploração de pessoas, que se declara marxista e ateia, recordou no jornal argentino Perfil, o apoio que o então cardeal Bergoglio prestou a La Alameda, uma fundação dedicada à luta contra o tráfico de pessoas na Argentina. Bergoglio esteve em várias ocasiões na sede da associação, o que em palavras de Camila serviu para proteger os militantes das ameaças de máfias exploradoras, "como para dizer: com esta gente não se metam".

O mais surpreendente para Camila, o que a levou a "desfazer os seus preconceitos", foi que o atual Papa nunca pretendeu tirar nenhum benefício pessoal da defesa que fez de La Alameda, e que além disso, respeitou a posição divergente que tinham noutros temas como o casamento homossexual e o aborto: "Aceitou-nos tal como éramos, ateus e muito afastados do cristianismo, para proteger-nos".

Aceprensa