Surpresa
 
O Papa Francisco, de tão genuíno, tem a capacidade de estar sempre a surpreender. Para alguns desses gestos, o jornalista remeteu para o vídeo disponível no seu órgão de comunicação, mas referiu ainda assim alguns emblemáticos: os seus frequentes telefonemas a quem precisa de ajuda, e o caso recente de um casal à espera do seu primeiro filho, com uma gravidez inviável. Embora querendo a todo o custo levar a gravidez a termo, a dor era imensa. Foram convidados para a Missa do Papa em Santa Marta e, no fim, tiveram oportunidade de lhe falar pessoalmente e sentir o seu afeto pela situação do casal e da vida humana ali presente. A partir dessa altura, a sua alegria na aceitação do que era até ali apenas um enorme sofrimento passou a ser um verdadeiro milagre, não no sentido mais óbvio do termo, mas no da verdadeira transformação. Referiu também a facilidade com que aceita o mate (bebida argentina) que alguém lhe traz em plena Audiência de quarta-feira ou noutras ocasiões, o beijo a um deficiente profundo, a saudação a familiares de doentes na Aula Paulo VI, tentando chegar a cada um. Pessoa de quem é muito fácil gostar pela sua tremenda humanidade e que facilmente desarma os críticos. Do agrado mesmo da comunicação social habitualmente mais afastada dos temas da Igreja, tem a possibilidade de fazer chegar longe a mensagem perene de Cristo.
 
papaemotivo
Alerta
 
Previsivelmente, as expetativas de mudanças doutrinais criadas por algum desses meios de comunicação, ou mesmo acarinhadas por alguns dos fiéis recentemente consultados a propósito do Sínodo sobre a Família, ver-se-ão em breve defraudadas. O que é de esperar é que, sem alterar a doutrina, haja maiores cuidados na atitude pastoral com que se venham a encarar determinadas situações.
 
Por outro lado, a lógica imediatista de alguns media foca-os excessivamente nos gestos de Francisco, sem abrir espaço para o essencial da sua mensagem. Dá imediatamente grandes títulos e puxa o lado emocional, sem se preocupar tanto com o contextualizar da doutrina e com a força com que o Papa reafirma pontos doutrinais e denuncia situações de injustiça gritantes. Convém, por isso, ao leitor ou a quem vê essas imagens documentar-se também por outras fontes mais completas. A "lua de mel" com os media acabará inevitavelmente e é necessário o devido enquadramento.
 
Relativamente ao debate sinodal previsto para o próximo mês de Outubro, Filipe d´ Avillez, a título pessoal e como conhecedor do que esperam os jornalistas, recomendou contenção aos bispos intervenientes, para que não sejam resolvidos na praça pública assuntos que têm o seu lugar próprio nas reuniões de trabalho.
 
Mensagem
 
Porque a sessão era dirigida a pais das associadas do Clube 7+, em Lisboa, o jornalista tinha sido convidado, também na sua qualidade de pai de três crianças, a referir como educar os filhos no amor ao Papa. E transmitiu, com naturalidade, como em casa tinham vivido com intensidade a eleição do novo Papa (com o pai habitualmente ausente, a alimentar o site da RR com as notícias em catadupa desses dias) e como, a partir de então, tinham introduzido diariamente uma oração pelo Papa Francisco. Posteriormente, vieram a acrescentar também o Patriarca Manuel, para que, desde cedo, cresçam no amor aos seus Pastores como uma relação íntima, que prolonga o amor que vivem em família com os pais e os irmãos.
 
Debate
 
Papas
No tempo deixado para debate, afloraram questões como o acesso à confissão e à comunhão de divorciados recasados, a preparação dos jornalistas para tratar de temas relacionados com religião, a resignação de Bento XVI. Filipe d´Avillez teve aqui uma boa oportunidade para fixar de novo algumas ideias importantes: a Eucaristia não é um prémio, mas uma ajuda no caminho. No entanto, a indissolubilidade do casamento é também um pilar importante do conjunto do edifício doutrinal da Igreja Católica. Os dois sacramentos podem ser explicados com mais eficácia, mas não tocados sem grande prejuízo para o conjunto das verdades, nem enviando sinais à cultura já tão fragilizada em temas de casamento e família. Comparou à situação (que não viveu, pela sua idade) do Concílio Vaticano II, em que também fez caminho a ideia do ecumenismo, que hoje vivemos como um dado adquirido. Referiu também o desconhecimento em ambientes universitários da importância do fator religioso, exemplificando com os casos do 11 de Setembro e da situação atual da Síria, incompreensíveis, sem essa leitura.
 
O relógio foi inexorável, na tarde que antecipava a mudança da hora. Por terem ficado muitos assuntos levantados, logo ali foi estabelecido um novo pacto de que sessões como esta teriam que ter continuidade.

Ana Amaral