Quando no próximo 14 de agosto o avião do Papa Francisco aterrar na base aérea de Seul, capital da Coreia do Sul, o Pontífice pisará uma terra durante muito tempo estranha para os cristãos ocidentais, mas na qual a Igreja se estabeleceu com vigor desde o primeiro momento em que se ouviu falar de Cristo, no não tão longínquo século XVIII.
 
Tendo em vista também o Norte
 
O programa do Papa será intenso: participará na VI Jornada da Juventude Asiática, que se celebrará em Daejeon (no centro do país). "Levanta-te, resplandece!" (Is. 60,1), é a exortação profética com a qual o Papa se dirigirá aos católicos da Coreia: 5,4 milhões num país de 52 milhões de habitantes. Uma força pequena, sem dúvida, mas em constante crescimento (há 15 anos atrás, eram só três milhões de fiéis).
E não só para eles e para o resto da população sul coreana, mas também para os seus irmãos do norte, que vivem sob um regime contrário a todo o tipo de liberdades, são esperadas palavras de esperança e de paz. "Na Terra Santa - aponta o cardeal Andrés Yeom Soo-jung, arcebispo de Seul e administrador apostólico de Pyongyang -, o Papa convidou os presidentes de Israel e da Palestina ‘a sua casa' no Vaticano para rezarem juntos. Talvez o Papa Francisco deseje fazer um gesto de paz ou tréguas para as duas Coreias. Atualmente, nenhuma das partes mostra vontade de retomar o diálogo, e isso é o mais frustrante para nós".
 
Em maio passado, o cardeal Yeom Soo-jung tornou-se no primeiro cardeal a visitar o país comunista. Segundo dados citados pela revista Palabra (fevereiro de 2009), em 1949, antes de se desencadear a guerra entre as Coreias, havia 55.000 católicos na Coreia do Norte. Com a perseguição, muitos foram assassinados ou presos, entre estes 160 sacerdotes e religiosos. Em Pyongyang existe um templo católico, construído por ocasião das Olimpíadas de 1988 em Seul, para dar uma imagem de abertura por parte do país.

Uma Igreja fundada por leigos
 
  "A Igreja coreana é única porque foi fundada inteiramente por leigos" (João Paulo II na Coreia, 1984)
O Pontífice tem previsto reunir-se com a presidente sul coreana, Park Geun-hye, e ir a um dos numerosos centros católicos de assistência social - 355 em todo o país - mais reconhecidos, o Bairro das Flores, onde se encontrará com crianças incapacitadas.
Irá também beatificar 124 mártires de sucessivas perseguições desencadeadas contra a Igreja coreana. O lugar da cerimónia será a Porta de GwangHwaMoon, justamente onde tinha sede o palácio real no tempo da dinastia Joseon, que reinou desde o século XIV ao XX, e sob a qual se cometeram cruéis injustiças contra os seguidores de Cristo.
 
A visita de Francisco é a primeira de um sucessor de São Pedro à península coreana num quarto de século. João Paulo II visitou-a em duas ocasiões: em 1984, para celebrar os 200 anos da presença católica e canonizar um primeiro grupo de 103 mártires, e em 1989, para assistir ao 44º Congresso Eucarístico Internacional.
 
Ao Papa polaco não lhe faltaram então palavras de admiração para o povo de Deus que peregrina nessa terra: "A Igreja coreana é única porque foi fundada inteiramente por leigos. Esta pequena Igreja, tão jovem e ainda assim tão firme na fé, suportou várias vagas de cruel perseguição, e em menos de um século pode contar com dez mil mártires. A sua morte converteu-se em levedura da Igreja e conduziu-a até ao seu atual florescimento. Ainda hoje, os seus espíritos imortais sustêm os cristãos na Igreja do silêncio, no norte desta terra tão tragicamente dividida".
 
"A religião da Mamã"
 
"De noite, Seul parece uma cidade cristã pelo grande número de cruzes que brilham sobre igrejas, escolas e hospitais", relata o P. Piero Gheddo, decano das Pontifícias Missões Estrangeiras de Milão, e amplo conhecedor das sociedades japonesa e sul coreana.
Segundo explica, são notáveis o impacto e o prestígio de que goza a fé católica na Coreia do Sul. Alguns chamam-na "a religião da Mamã", porque muitos templos têm, no seu exterior, uma estátua da Virgem com os braços abertos num gesto de acolhimento, como que convidando a entrar os que passam por ali; mas também porque a maioria dos membros da paróquia é feminina: quase 3,2 milhões de mulheres frente a 2,3 milhões de homens, de acordo com dados de 2013.
 
Em confirmação da ideia de que é uma religião consolidada no país asiático, há todo um grupo de factores. Um deles, já referido pelo Papa João Paulo II, é o histórico: a Igreja foi fundada por nobres coreanos, que em 1777 levaram ao país a literatura cristã obtida dos jesuítas na China. Uma Igreja inexperiente, leiga, nativa a cem por cento. De facto, conta-se que quando um presbítero chinês chegou à península 12 anos depois, encontrou uma comunidade de 4.000 católicos que nunca haviam visto um sacerdote. Sete anos mais tarde, já eram 10.000 os batizados.
 
Por outra parte, o P. Gheddo aponta que em contraste com o confucionismo e o budismo, religiões tradicionais do país e de boa parte da Ásia, o cristianismo tem o atrativo de ter introduzido a ideia da igualdade de todos os seres humanos, criados pelo mesmo Deus, Pai de todos, e o princípio da igualdade de direitos e dignidade entre o homem e a mulher, mulher esta à qual Confúcio se referia depreciativamente como "um homem falhado".
 
Da mesma forma, outras diferenças vitais entre a visão social desses sistemas de crenças e o cristianismo afloraram durante as décadas posteriores à guerra. Por um lado, o apego ao imobilismo, à contemplação de uma realidade imodificável, inevitavelmente marcada pelo "destino", e por outro, a promoção da educação como poder transformador. Como assinala o P. Gheddo: "Católicos e protestantes construíram e mantêm uma grande quantidade de escolas em todos os níveis, incluindo numerosas universidades - as católicas são 12 - que se afirmaram no país como as melhores do ponto de vista educativo e dos valores em que formam os jovens. Todas as famílias queriam mandar os seus filhos para as escolas cristãs".
 
Uma voz potente contra a ditadura
 
Do mesmo modo, os cristãos inseriram-se ativamente no movimento popular contra as ditaduras militares que assombraram o país entre 1961 e 1987. Enquanto o confucionismo e o budismo promoviam a obediência à autoridade constituída, a pressão das Igrejas na opinião pública derivou na erosão do regime e na implantação da democracia.
A própria catedral de Seul foi refúgio de numerosos ativistas - nas suas imediações os jovens estudantes enfrentavam as desmoralizadas forças policiais -, e a figura do cardeal Stephen Kim Sou-hwan (1922-2009) emergiu mais do que uma vez como voz potente a favor dos direitos humanos e do Estado de Direito.
 
Com estas credenciais, entende-se que os cristãos sul coreanos não tenham motivo para enterrar a cabeça na areia, e que, pelo contrário, participem nas conversas que se registam maioritariamente em zonas urbanas. Dos sacramentos aproximam-se muitos profissionais, estudantes, artistas, políticos e militares de alta patente.
 
Segundo o P. Vincent Ri, perfeito de estudos da Faculdade de Teologia do seminário maior de Kwangju, "o coreano está orgulhoso de se definir como uma pessoa religiosa: entre os estudantes, os intelectuais e as pessoas cultas tampouco existe o espírito antirreligioso ou ateu, comum na Europa. O factor religioso está no centro da vida do nosso povo".
 
Muita confiança, pouca diversidade social
 
Sendo que constituem apenas 10% da população coreana, os católicos fazem sentir a sua influência de um modo muito positivo, ao ponto de a Igreja ser a instituição que inspira mais confiança. A denominada Sondagem da Credibilidade Social, efectuada em fevereiro passado pelo Christian Ethics Movement, concluiu que a Igreja conta com 29% de aceitação, seguida por 28% que elegem as instituições budistas - num país de tradição budista!-. Inclusivamente entre os que se declaram "sem religião", a percentagem de confiança nos católicos é a maior, com 32%.
 
Muito afastadas estão as Igrejas protestantes, tendo em conta que os seus seguidores constituem 18% da população (segundo o censo de 2007): só 21% dos consultados lhes dá crédito.
 
Tais valores, no entanto, não animam a Igreja a lançar foguetes, pois há problemas que se fazem sentir, alguns deles vinculados ao vertiginoso progresso económico. Segundo o site da Conferência Episcopal (CE) coreana, a própria composição do laicado - uma maioria de profissionais, com rendimentos médios e altos - implica que a Igreja cresceu em recursos humanos e materiais, mas que se criou nela uma atmosfera da qual as pessoas de estratos mais baixos se sentem distanciadas.
 
"Se a Igreja - assinala o site dos bispos - é liderada por uma só classe específica de pessoas, a salvação universal, que é o seu objetivo, não pode realizar-se. O clero e outras vozes começaram a manifestar esta preocupação".
 
Competitividade exagerada
 
Por outro lado, as estatísticas da própria CE referem que, em 2013, dos mais de cinco milhões de católicos declarados, apenas 1,6 milhões (21%), em média, assistiram à missa de domingo, e que um terço comungou pela Páscoa e pelo Natal. A brecha, como se pode ver, é ampla, e para alguns, contrasta com o trabalho missionário que realizam sacerdotes diocesanos e religiosos e religiosas sul coreanos (979 no total) nos cinco continentes.
 
Como no Ocidente, o factor económico, a preocupação pela competitividade, parecem estar a ter repercussões. Uma análise do fenómeno de uma perspectiva eclesial indica que, por razões financeiras, inseridos num mercado laboral cada vez mais inseguro e com remunerações reduzidas, os jovens sul coreanos estão a atrasar o momento do noivado, do matrimónio e da concepção. Se chegado a uma determinada idade o trabalhador não contar com um currículo considerável, é visto como um "perdedor", pelo que sente a pressão de priorizar o aspecto profissional sem "romanticismos". De uma óptica que privilegia o prático-funcional, o "aqui e agora", o que são a Igreja e a prática religiosa senão "mais um romanticismo"?
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Com certeza, este caminho não conduz a uma sociedade mais humana. Por isso, a Igreja sul coreana pode ajudar os jovens a vencer sabiamente as suas dificuldades, que em última instância não são unicamente "suas", mas uma realidade que deve ser enfrentada pela sociedade em conjunto.
 
Álvaro Rojas

E a qualidade da evangelização?

O bispo de Cheju e presidente da Conferência Episcopal coreana, Mons. Pedro Kang U-il, analisa em AsiaNews os problemas e as esperanças ligadas à próxima visita do Papa ao seu país, uma nação que, segundo afirma, viveu na última metade do século "um desenvolvimento impressionante do ponto de vista económico, político e religioso". Na sua opinião, a presença do Pontífice estimulá-los-á "a transformar o crescimento mecânico numa relação mais humana em todos os campos".

- Que frutos poderá trazer a visita do Papa?

- Hoje em dia, o povo coreano, não apenas os cristãos, mas também muitos outros que não pertencem à Igreja católica, esperam sinceramente esta visita com grande esperança e com diversas expectativas. Uma das esperanças mais sentidas por todos é que o Papa possa dar início a um novo momento, uma nova fase para a reconciliação e a unidade entre as duas Coreias, a do Norte e a do Sul. Temos vivido, nos últimos 64 anos, com apreensão e sob a perene ameaça da guerra. Alguém disse que a Guerra Fria global tinha terminado com a dissolução da União Soviética, mas na península coreana estamos ainda obrigados a viver sob essa tensão.

São inumeráveis as pessoas separadas das suas próprias famílias (...), que por mais de meio século não conseguiram encontrar-se novamente desde a separação. Aqueles que deixaram a sua casa durante a última Guerra da Coreia (1950-1953) anseiam desesperadamente uma reunificação, pois muitos estão a morrer, quer pela idade avançada, quer por motivo de doença. Muitos coreanos sentem que os líderes políticos não conseguem, pelas suas próprias limitações, eliminar a cortina de confronto e de ódio, e desde há algum tempo temos começado a sentir-nos esmagados pelas superpotências do nordeste asiático.

O nosso maior sonho é a paz, mas somente o Senhor poderá remover os obstáculos e as barreiras que existem entre o Norte e o Sul. (...) Como coreanos esperamos sinceramente que o Papa Francisco possa dar início a uma nova era de reconciliação e diálogo, difundindo a sua mensagem de paz ao nordeste asiático, o que poderá certamente contribuir muitíssimo para a paz no planeta.

-Quais são as necessidades atuais da sociedade e da Igreja coreanas?


-Com frequência diz-se que os sul coreanos viveram nos últimos cinquenta anos um desenvolvimento tão rápido para o qual outras nações teriam precisado de pelo menos cem anos. Estima-se que na última metade de século os coreanos tenham alcançado mudanças realmente rápidas no campo da indústria, da democracia e também da evangelização. Ainda assim, no processo que levou a este rápido progresso atravessámos contradições que ainda produzem sofrimentos e provocam protestos entre a população. No campo político, vivemos ainda uma confrontação muito dura entre conservadores e liberais, e no económico, ainda que a nação tenha alcançado êxitos importantes, o fosso entre ricos e pobres é quase intransponível.

Na área da evangelização, a Igreja conquistou êxitos do ponto de vista das conversões. Nos últimos cinquenta anos, a população católica aumentou de meio milhão de pessoas para mais de 5 milhões. Mas agora começamos a perguntar-nos sobre a qualidade da evangelização. A Igreja da Coreia pode ter convertido um grande número de pessoas à nossa religião, mas não estamos muito seguros de ter evangelizado a vida da população coreana ao ponto de as pessoas poderem testemunhar os valores evangélicos na sociedade. Agora, esta deve dar um passo mais à frente: de um desenvolvimento económico mecânico deve passar a um desenvolvimento que integre realmente o ser humano; a democracia de fachada deve passar a uma democracia do espírito, que respeite realmente os direitos humanos e os valores de cada indivíduo; das atividades missionárias dirigidas só para o exterior, a uma maturidade evangélica na Igreja.

-Qual é o valor missionário da visita de Francisco?


-Observando as visitas que o Papa realizou até hoje, entendemos que ele é muito sensível a tudo o que se refere aos problemas dos pobres, seja em Lampedusa, no Brasil ou ao muro que divide israelitas e palestinianos. Acreditamos que quer visitar esta nação porque vivemos todos os dias no perigo permanente de uma guerra e porque nesta península aceleram as tensões das potências globais, movidas pelos seus próprios interesses e pelo desejo de hegemonia na região. Esperemos que o Papa provoque uma verdadeira oportunidade para mitigar a confrontação hostil, abrindo o caminho para a paz. E rezemos para que possa incentivar a sociedade coreana a alcançar um verdadeiro amadurecimento humano em todos os níveis.