Papa
No primeiro episódio, o Papa quis clarificar o que foi o Sínodo de outubro passado e, sobretudo, precisou quais os documentos que devem ser considerados oficiais. Com o seu sentido de humor muito próprio, referiu-se à visão dos meios de comunicação, que informaram sobre a assembleia episcopal como se fosse quase uma cónica desportiva ou política, com a sua contínua referência aos antagonismos dos pró e contra, ou de conservadores e progressistas.
 
Francisco agradeceu aos Padres sinodais terem acolhido o seu pedido de falar com franqueza e valentia, e de escutar com humildade. No fundo, sempre assim aconteceu na Igreja, desde o tempo dos Apóstolos, ao discutirem sobre as exigências para com os pagãos que recebiam o batismo. A experiência repete-se hoje nos Sínodos: quando se procura a vontade de Deus, surgem diferentes pontos de vista e discussões, o que não é negativo.

  "Nenhuma intervenção pôs em questão as verdades fundamentais do sacramento do matrimónio, ou seja: a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a abertura à vida"
Tê-lo-ia sido, reconheceu o Papa, se se tivessem apresentado pontos de vista que negassem as "verdades fundamentais" da doutrina da Igreja. Mas "nenhuma intervenção pôs em questão as verdades fundamentais do sacramento do matrimónio, ou seja: a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a abertura à vida".
Mesmo quando eram feitas afirmações fortes, era sempre cum Petro et sub Petro: na presença do Papa, que é "para todos garante de liberdade e confiança, garante da ortodoxia", como indicou na sua intervenção final no sínodo, que refletia uma leitura sintética da experiência sinodal. Dos passos intermédios - como o relatório prévio das discussões dos grupos de trabalho - foi-se informando com transparência. Mas, olhando para o futuro, o Papa insiste em que só há três documentos oficiais: a breve mensagem final, o relatório e o discurso conclusivo do próprio pontífice. Tudo o resto - inclusive informações, entrevistas e briefings - é apenas material preparatório, em boa parte criticado e modificado posteriormente pela assembleia.

O Sínodo de Bispos não é um Parlamento

O relatório do Sínodo de 2014 foi publicado e enviado às Conferências Episcopais, como lineamenta (documento de trabalho) da próxima Assembleia de outubro de 2015. Foram acrescentadas perguntas específicas dirigidas de Roma ao episcopado e aos fiéis. Mas o texto básico volta ás igrejas particulares, onde continua o trabalho de oração, reflexão e discussão fraterna com a finalidade de preparar o próximo Sínodo em Roma.

  O documento final do Sínodo Extraordinário é agora enviado às Conferências Episcopais com uma série de perguntas para tratar no Sínodo de 2015

Não obstante, na audiência geral de quarta-feira, Francisco insistiu na diferença entre o caminho dos dois Sínodos e os procedimentos políticos ou parlamentares. O Sínodo "não é um parlamento": embora participem representantes das igrejas particulares, "a estrutura não é parlamentar. É totalmente diversa": não há oposição entre fações, mas sim processo de abertura à ação do Espírito Santo.

O Papa recordou explicitamente que os católicos creem que, quando os bispos se reúnem com o pontífice, aí atua o Espírito Santo. E onde está a Igreja, está também a Virgem, a cuja intercessão se confiam diretamente o Papa, os bispos, as famílias.

Perguntas específicas sobre o futuro da família

Para facilitar o trabalho, a Relatio Synodi é agora enviada às Conferências Episcopais com uma série de perguntas: vão ajudar a continuar o processo sinodal e a elaborar um Instrumentum laboris futuro e específico para a próxima Assembleia, de acordo com a prática de sínodos anteriores. De acordo com essa tradição, envia-se também aos sínodos das Igrejas orientais católicas sui iuris, à União de Superiores Religiosos e aos departamentos da Cúria Romana. As respostas devem ser recebidas antes de 15 de Abril de 2015, para que o Instrumentum laboris seja publicado antes do verão.

   O Papa começa nas audiências gerais um novo ciclo de catequeses sobre a família

As perguntas foram elaboradas com referência às diversas seções do Relatório do Sínodo. Trata-se de evitar que alguns aspetos fiquem fora das deliberações da próxima Assembleia, embora sejam importantes na Igreja e na sociedade atual., E, simultaneamente, de concretizar ao máximo possíveis propostas. Daí a importância de valorizar adequadamente o contexto social e o consequente pluralismo cultural, mas sem se centrar, como costuma fazer alguns meios de comunicação, nas situações extremas. Estas devem ser atendidas, quando não puderem ser prevenidas nem evitadas, num mundo com certa hipersensibilidade emocional, que apresenta novos desafios ao anúncio renovado do Evangelho da família.

Abre-se assim na Igreja um tempo de trabalho e de oração em favor da família, que terá também um momento crucial na Jornada mundial de 22 a 27 de Setembro de 2015 em Filadélfia. O Papa participará no evento, de acordo com a carta dirigida ao bispo Vincenzo Paglia, presidente do Pontifício Conselho para a Família, em que previne contra simplificações conservadoras ou progressistas: "A família é a família!" " visto que os seus valores e virtudes, as suas verdades essenciais, são os pontos fortes sobre os quais se apoia o núcleo familiar e não podem ser postos em discussão". Essa realidade parece totalmente compatível com "rever o nosso estilo de vida que está sempre exposto ao risco de ser ‘contagiado' por uma mentalidade mundana - individualista, consumista, hedonista - e a reencontrar sempre de novo a via mestra para viver e propor a grandeza e a beleza do matrimónio e a alegria de ser família e de formar uma família".

Daí as importância de atender neste período da vida da Igreja o pedido de rezar com frequência a oração do Santo Padre pelo Sínodo sobre a Família.

Aceprensa