O desafio para a Igreja consiste em encontrar em cada momento da História a forma mais adequada para transmitir a sua mensagem permanente. Isto supõe um cuidado constante, para evitar que essas formas históricas não acabem por ofuscar o essencial. Confundir a forma humana com o fundamento divino seria uma curiosa variante de idolatria. Pretender, pelo contrário, que a mensagem cristã se exprima, sem recorrer a nenhuma forma, seria negar a realidade da Encarnação: o próprio Cristo se vestiu, trabalhou, comeu e falou com caraterísticas determinadas, como bom judeu. O essencial não vive em estado puro, mas requer certas expressões externas para se manifestar.

Durante a Idade Média e o Renascimento, o Papado adquiriu diversas formas, tanto na sua aparência externa como a sua organização. Francisco mudou algumas dessas manifestações externas, que "podem ser belas, mas agora não prestam o mesmo serviço relativamente à transmissão do Evangelho". João Paulo II mudou outras, como a cadeira gestatória e a tradição de que os Papas não saiam do Vaticano, ou não praticavam desporto. Que o Papa use sapatos vermelhos, brancos, pretos ou sandálias, não parece demasiado importante, nem sequer é um sinal que nos dê particular alegria, tendo em conta o nosso temperamento estético/teológico.

Naturalmente, essas formas não se referem só às vestes ou ao lugar onde dorme o Papa. Há algumas que têm tal importância histórica que a sua mudança (ou a sua manutenção) implica riscos importantes. Francisco chamou a atenção sobre um ponto muito delicado, já assinalado por João Paulo II: a forma como se exerce o Pontificado. Dizia em 1995 que era necessário encontrar "uma forma do exercício do primado que, sem renunciar de nenhum modo ao essencial da sua missão, se abra a uma nova situação.".
Francisco pensa que se tem avançado pouco neste sentido e que hoje se torna necessário promover uma "saudável descentralização", que ponha em marcha essa aspiração do Papa polaco. Descentralizar não significa suprimir o papado nem negar um ápice ao seu valor na vida da Igreja. Trata-se, simplesmente, de encontrar formas que ajudem a cumprir melhor a missão, e que permitam eliminar obstáculos desnecessários no diálogo com a Igreja Ortodoxa. (...).

Apreço pela simplicidade

O apreço pela simplicidade acompanhou-o sempre: em Buenos Aires e em Roma. Mas há um traço da sua personalidade que mudou o dia da sua eleição. O cardeal Bergoglio era um homem retraído e pouco carismático. Os que o conheciam de perto percebiam a sua profunda humanidade, mas não era uma pessoa que andasse sempre com um sorriso nos lábios, mas sim um asceta moderado. Ainda que ele se tenha referido ao tema de maneira sucinta, dá a impressão de que nesse dia recebeu um dom muito particular, o da alegria, do acolhimento e a ternura.

Essa alegria transbordante tem-no ajudado enormemente a transmitir algumas ideias que para ele são fundamentais. Vejamos alguns exemplos.

Que é o mais importante?

Para ele, o primeiro é ir ao fundamental, que, no caso de um cristão, se chama Jesus Cristo. O cristianismo não é um conjunto de prescrições e mandamen-tos, mas sim o encontro com a Pessoa de Jesus. O resto vem depois. Sim, como diz Francisco, ao serviço de urgência de um hospital chega um ferido grave, o médico não pergunta pelos níveis de colesterol: estanca a hemorragia, vai ao fundamental. Significa isto que são irrelevantes os níveis de colesterol para levar uma vida saudável? É claro que não, mas é um problema para depois.

 Se a pregação se centrar nos aspectos secundários, sem mostrar o contexto, torna-se incompreensível. Por isso há que insistir uma e outra vez no essencial: Cristo 

O mesmo se passa com a doutrina cristã. Nem todas as verdades têm a mesma importância nem são fundamentais. Se a pregação se centrar nos aspectos secundários, sem mostrar o contexto, torna-se incompreensível. Por isso há que insistir uma e outra vez no essencial: Cristo, morto e ressuscitado por cada um de nós. A mensagem cristã deve concentrar-se "no essencial, que é o mais belo, o melhor, o atrativo e ao mesmo tempo o mais necessário. A proposta simplifica-se, sem perder por isso profundidade e verdade, e assim se torna mais contundente e radiosa", diz-nos. Aboliu com isto alguma das exigências morais do cristianismo? Nenhuma, simplesmente as pôs no seu lugar e as tornou compreensíveis.

Chegar aos que estão longe

Esta concentração no essencial tem uma vantagem prática. Permite aproximar-se dos que não fazem parte do núcleo duro do catolicismo, dos milhões de homens e mulheres que não integram o grupo seleto dos que estão perfeitamente convencidos e têm tudo perfeitamente claro (...).

  A concentração no essencial permite aproximar-se dos que não fazem parte do núcleo duro do catolicismo

Os críticos de Francisco esquecem que o Papa não lhes está a falar primeiramente a eles, mas sim às pessoas comuns, a esses católicos que estão batizados, mas só entram nas igrejas para casamentos e funerais. Essa gente não lê encíclicas nem bulas. Tem que se lhes falar de outro modo. Se lêem entrevistas a uma actriz de cinema ou a um futebolista então temos de dar entrevistas ou fazer o que quer que seja, mas há que chegar a eles. E se perde a solenidade papal? Duvido que a São Pedro as solenidades lhe tenham tirado o sono.

Tudo isto implica riscos, mas maior é o perigo de se tornar burguesa à força de procurar segurança. "Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças", assinala. (...).

Nem tudo, no entanto, é afeto e compreensão no Papa Francisco. Ele falou com palavras muito duras aos eclesiásticos, fazendo-lhes ver que a sua missão deve ser um autêntico serviço. Neste contexto de entrega radical, torna-se ridículo andar à caça de cargos e títulos honoríficos. A cúria vaticana está para servir os outros, não para fazer carreira. Nada de príncipes. Que fique fora do sacerdócio a "preocupação excessiva pelas situações pessoais de autonomia e comodidade" .Aqui trata-se de viver para os outros, de ser pastores "com cheiro a ovelha".

Atender aos pobres

O empenho de mover os católicos a olhar para o essencial exige recusar a idolatria do dinheiro e os bens materiais. Só assim é possível ter o olhar livre para atender os pobres. Isto não é comunismo, como alguém tem pretendido, mas sim puro Evangelho.

Noutras épocas, o problema era a exploração. Hoje o drama mais grave são os excluídos, seres humanos que são transformados em resíduos, sobras. O Papa é muito concreto: "Não se pode tolerar mais que se esbanje comida quando há gente que passa fome". Ao mesmo tempo, tem palavras muito duras contra a evasão fiscal egoísta, e contra a "consciência fechada" de quem tem o coração embotado pelo bem-estar, e vivem como se os outros, especialmente os pobres, não existissem. A sua solidariedade atinge a própria arquitetura das nossas cidades, onde "as casas e bairros se constroem mais para isolar e proteger do que para unir e integrar". O esquecimento dos pobres na vida diária dos outros cidadãos tem muitas facetas, mas "a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de atenção espiritual".

Que tem isto de comunismo? Não será, antes, uma chamada inquietante que se torna incompatível com atitudes cómodas e auto-suficientes?

 Os pobres não são um anexo do cristianismo, mas sim o seu património e constituem um elemento central na ética das bem-aventuranças 

O Papa antecipa-se às desculpas que todos costumamos dar: "Ninguém deve-ria dizer que se mantém longe dos pobres porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outros assuntos. Esta é uma desculpa frequente nos ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até eclesiásticos (...) Ninguém pode sentir-se excluído da preocupação pelos pobres e pela justiça social". (...).

Os pobres não são um anexo do cristianismo, mas sim o seu património e constituem um elemento central na ética das bem-aventuranças. Nas nossas cidades, perfeitamente divididas, o contacto com o pobre torna-se difícil para muitos, porque exige percorrer grandes distâncias e meter-se num mundo desconhecido. O viver a experiência de entrar num gigantesco hospital público, ou numa cadeia, para se contactar com alguém que está só, diante do qual não valem nem os títulos, nem os contactos, nem os apelidos, porque está aí, diante de nós, e nos interpela na sua humanidade indigente.

A aproximação papal da pobreza e da marginalização esclarece o seu modo de encarar o drama do aborto. Aqui não valem reformas ou "modernizações" da posição da Igreja. "Não é progressista pretender resolver os problemas eliminando uma vida humana". Mas essa mesma preocupação pelo débil exige preocupar-se muito a sério por acompanhar as mulheres que se encontram nessa difícil situação.

O futuro

(...) Há muitos outros temas põe enfrentar, entre outros o animar esses milhões de católicos que sentem a Igreja como algo muito longínquo, para que regressem a casa e descubram um caminho que os ajudará a viver uma exis-tência mais plena e alegre. Não sabemos quanto tempo tem este Papa pela frente. Mas ainda que só lhe restassem uns dias, ainda que morre-se amanhã e o seu pontificado fosse um dos mais curtos da história, está claro que Francisco não terá sido um simples Papa de transição. Depois dele, o Papado, certamente, será o de sempre. Mas não será o mesmo.

Aceprensa