Seria injusto dizer-se que apenas os católicos anseiam ver Francisco, uma vez que a sua peregrinação se enquadra no 50º Aniversário do encontro entre Paulo VI (proximamente beato) e Atenágoras, patriarca ortodoxo de Constantinopla.
É neste contexto que os católicos ocidentais verão desenvolver-se a viagem do Santo Padre, rodeado também por autoridades católicas de diferentes ritos, como por exemplo o patriarca maronita, Bechara Butros Rai.

No Médio Oriente, um patriarca preside a um grupo de fiéis de um determinado rito e comunica diretamente com o Papa, além de ter os seus próprios bispos. Nestes países, os católicos de rito latino costumam ser uma minoria, predominando, dependendo do país, os maronitas (Líbano), os arménios católicos, os greco-católicos ou melquitas, os coptas (Egipto), os caldeus (Iraque), etc.

Além das Igrejas em que a cabeça é o Papa, convivem nestes países cristãos ortodoxos de diferentes ritos. Na prática não se diferenciam nas suas crenças dos católicos e celebram-se numerosos casamentos mistos, nos quais a mulher segue o rito do marido sem demasiadas perguntas.

Após o Concílio Vaticano II, existe um grande esforço na busca da unidade da Igreja através do diálogo ecuménico, que tem dado grandes passos através de visitas, reuniões e trabalhos entre católicos e ortodoxos.

Os cristãos, cidadãos de pleno direito
 
  No séquito da Papa Francisco vai o Patriarca maronita do líbano, Bechara Butros Rai, que quer visitar as comunidades de cristãos na Terra Santa
Por outro lado, durante os últimos séculos, a presença e extensão do Islão produziu nas comunidades cristãs um efeito de retirada e de reclusão em si mesmas. Sobretudo nas últimas décadas esta retirada teve como consequência a emigração de centenas de milhares de cristãos para o estrangeiro.
 
Não há muitos meses, uma das conclusões de uma reunião de patriarcas orientais foi a de impulsionar as suas comunidades a participar na sociedade civil, trabalhando ativamente pelos seus países, como cidadãos com direitos.
Os patriarcas procuram fomentar o papel social que os cristãos devem desempenhar na política e na sociedade, deixando de se esconder na desculpa de serem uma minoria. Isto torna-se de vital importância pelo facto de, desgraçadamente, se tomarem decisões na região sem os ter em conta.
 
Os católicos e os cristãos em geral, esperam do Santo Padre palavras de alento, de apoio e de reconhecimento a estas igrejas que sofrem perseguições e contam com centenas de mártires, na atualidade.
 
Em muitos meios de comunicação do Médio Oriente transparecem ventos a favor da paz. Até agora, depois da guerra entre palestinianos, libaneses e israelitas, não se produziu nenhum diálogo diplomático entre o Líbano e Israel. Isto tem como consequência que muitas famílias libanesas e palestinas, desde o ano 2000, estejam separadas entre um país e o outro.
 
Espera-se, neste enquadramento, que o encontro que o Santo Padre irá manter com as autoridades palestinas e mais tarde com os líderes judeus possa contribuir para o início de um diálogo de paz.

O patriarca maronita na Terra Santa
 
 Perto de dez mil libaneses vivem em Israel desde a retirada das tropas israelitas do Líbano, no ano 2000 
Para receber e acompanhar o Papa Francisco, o patriarca maronita Bechara Butros Rai viajará do Líbano com um passaporte do Vaticano, o que lhe permitirá deslocar-se na região evitando os conflitos diplomáticos que existem com o país vizinho.
Aproximadamente dez mil libaneses vivem na Terra Santa desde o ano 2000, data em que as tropas israelitas se retiraram do Líbano. Entre eles, encontram-se muçulmanos, drusos e cristãos. Será a primeira vez que o patriarca maronita visitará esta comunidade de fiéis.
 
Em 1978, quando algumas cidades do sul do Líbano foram sitiadas por tropas israelitas, muitas famílias decidiram fugir para o interior do país. No entanto, cerca de dez mil pessoas ficaram em suas casas. E, embora o exército tenha ido em sua defesa, as frentes numerosas e o temor quer dos palestinianos quer dos judeus, levou estas famílias a lutar pelo lado judaico.
 
As pessoas destas zonas formaram o "Líbano Livre", mas no momento em que Israel se retira por completo no ano 2000, decidem também retirar-se com medo das represálias dos seus próprios compatriotas e dos palestinianos.
Os maronitas que ali se instalaram fizeram-no na zona hebraica e não na palestiniana, por ser a sua única opção em contexto de guerra. "Ao princípio, a relação entre cristãos maronitas e palestinianos era completamente hostil. Estes últimos encorajavam-se entre eles a não receber em suas casas, nem fazer amizade com os procedentes do Líbano porque eram "agentes, espiões de Israel, que vivem em terras e cidades judaicas", explica Mons. Moussa el Hage, arcebispo maronita de Haifa (Israel) e Amã (Jordânia), e atualmente administrador apostólico das mesquitas da Terra Santa. "Com o passar do tempo as relações foram melhorando".
"As dificuldades vividas diariamente pelos palestinianos na Terra Santa reforçam a necessidade de um líder regional que seja a sua voz. Por isso o patriarca quer encontrar-se com todas as comunidades que manifestaram esse desejo, e não apenas os maronitas".
 
Relativamente às expectativas suscitadas entre os libaneses de diferentes ritos, Mons. Hage diz que "as pessoas conhecem-no (ao patriarca maronita) pela televisão católica libanesa, conhecem a sua personalidade e valorizam a sua valentia, e querem encontrar-se com ele. Sentem-se fechados, precisam de lhe falar e o patriarca quer escutar os seus problemas e reconfortá-los, visitando-os nas suas próprias paróquias". E escutando-os poderá informar o Papa dos problemas existentes.

Algumas dificuldades dos árabes na Terra Santa
 
  Há muitos jovens palestinianos que compram casas nos bairros judeus porque nas suas terras já não há sítio e não conseguem autorização de construção
O governo judaico é favorável a que os libaneses que se estabeleceram em Israel façam parte do exército. Mas eles sentem-se mais próximos dos palestinianos que dos judeus. Além disso, o governo ao declarar que Israel é um Estado judaico torna incompatível trabalhar por essa causa.
Judeus e palestinianos não têm as mesmas facilidades. Há muitos direitos dos árabes que não são reconhecidos pelo Estado; pelo contrário, os judeus que chegam de qualquer parte do mundo para instalar-se, encontram melhores condições que os árabes.
 
Monsenhor el Hage relata algumas das dificuldades da vida quotidiana: "Por exemplo, as autorizações para construir uma casa para um árabe demoram 2 a 15 anos enquanto para os judeus é muito mais fácil. Se entram no exército, há graus militares e funções, como a de piloto, que não podem ser exercidas por palestinianos".
Hoje há muitos jovens palestinianos que compram casas em bairros judeus porque nas suas terras já não há sítio e não conseguem autorização de construção. Isto faz com que muitos judeus deixem as suas vivendas porque não querem viver com os árabes, chegando inclusivamente a colocar cartazes nos edifícios que dizem: "Proibida a entrada a árabes".
 
O problema não é com todos os judeus pois os jovens costumam ir à escola e à universidade juntos, mas apenas com aqueles extremistas que não toleram a convivência na mesma terra. Também não ajuda a mentalidade da "Terra Prometida" de que se alimentam judeus e muçulmanos, da qual cada povo se considera o herdeiro.

Julia Mendoza