Seguindo os passos do apóstolo Paulo, o papa Francisco realizará uma visita pastoral à Turquia entre 28 e 30 de novembro. No primeiro dia, o Papa será recebido em Ancara pelas autoridades turcas, realizando diversos encontros protocolares ao mais alto nível.
Papa na Turquia
No dia seguinte, irá até Istambul. Na anteriormente chamada Bizâncio e depois Constantinopla, Francisco visitará o museu Santa Sofia - foi a primeira basílica (século VI) e o maior templo da cristandade durante muitos séculos -, e a famosa Mesquita Azul (do século XVII). Em seguida, irá celebrar a Eucaristia na Catedral católica do Espírito Santo, deslocando-se posteriormente à Igreja patriarcal de São Jorge para participar numa oração ecuménica. Para concluir, terá um encontro com o Patriarca da Igreja Ortodoxa Grega, Bartolomeu I, sucessor de Sto. André.
  Os católicos são cerca de 53 mil fiéis numa população de 72 milhões de pessoas, maioritariamente muçulmanos.

No domingo, dia 30, o Papa celebrará privadamente a santa missa na Delegação Apostólica e assistirá à Divina Liturgia na Igreja Patriarcal de São Jorge. Seguir-se-á uma benção ecuménica e a assinatura de uma declaração conjunta com o patriarca ortodoxo, tal como o fez Bento XVI durante a sua visita em 2006. Por volta das 17 horas, Francisco voará de regresso a Roma.

Poucos católicos num país muçulmano

Encontrar católicos num país de acentuada tradição islâmica é como encontrar uma agulha num palheiro. Os fiéis pertencentes à Igreja de Roma totalizam cerca de 53 mil numa população de 72 milhões de habitantes, na sua maioria muçulmanos sunitas. Mas ali estão e a sua presença nota-se: 7 circunscrições eclesiásticas, 54 paróquias, seis bispos e 58 sacerdotes, além de 54 religiosos e 4 seminaristas, entre outros.

A memória da figura de S. João XXIII, padroeiro, como S. João Crisóstomo, da Igreja local, estará presente nesses dias. Entre 1935 e 1944, o então Delegado Apostólico na Turquia, Angelo Roncalli, construiu pontes entre Roma, por um lado, e os cristãos ortodoxos e muçulmanos turcos, por outro, despertando a admiração e o respeito por parte das autoridades e do povo deste país euro-asiático. Depois, ao ser eleito para a sede de Pedro, estabeleceu relações diplomáticas entre a Turquia e o Estado do Vaticano.

Um artigo do jornal local Hurriyet Daily News sobre aquele a quem chamam o "Papa turco", lembra que Roncalli, "com a sua personalidade carismática, estabeleceu relações com representantes dos diferentes credos e agiu pessoalmente, sem perder de vista a reconciliação e o entendimento político, como contributos ao diálogo inter-religioso e ao abandono dos preconceitos ".

O problema das propriedades

 O Estado turco não reconhece personalidade jurídica à Igreja, tornando impossível que seja proprietária de imóveis. 

Como na maioria dos lugares onde a Igreja está presente, também na Turquia a ação social católica é visível no serviço que prestam 23 escolas de diferentes níveis de ensino, assim como 6 escolas de educação especial. Na rede dos serviços de saúde, a Igreja tem e dirige três hospitais, duas clínicas e cinco lares de idosos e pessoas com deficiência.

No entanto, este "ter" é forçosamente entre aspas, uma vez que o Estado turco ao não reconhecer personalidade jurídica à Igreja, torna impossível a propriedade de quaisquer imóveis. Na verdade, as autoridades têm saqueado orfanatos e demolido edifícios paroquiais para construir hotéis.

"O nosso verdadeiro problema continua a ser a propriedade da terra - explicava Mons. Louis Pelâtre, vigário apostólico de Istambul, no Relatório sobre Liberdade Religiosa de 2012, da Ajuda à Igreja que Sofre -. Não temos documentos comprovativos da propriedade, nem nunca os tivemos. (...) Não sou reconhecido como bispo, e daí apenas posso abrir uma conta bancária em meu nome, mas não em nome da minha diocese".

As Igrejas ortodoxa, arménia e a comunidade judaica, minorias reconhecidas no Tratado de Lausanne de 1923, receberam garantias do governo turco de que lhes serão devolvidas as propriedades confiscadas na década de 1920, em 1936 e 1960, o que não aconteceu com a Igreja latina.

Em declarações à Aceprensa, o Vigário Geral de Istambul, Frei Ruben Tierrablanca OFM, diz que o benefício que as Igrejas Orientais podem receber com esta devolução de bens tem "muitas dobras" a desdobrar, embora "todos beneficiem quando um membro se alegra. Não podemos continuar com o espírito de rivalidade: por que eles sim e nós não ".

A visita do Papa Francisco é a quarta de um Pontífice romano à Turquia

"Cada edifício e propriedade da Igreja Católica tem uma posição diferente dos outros casos - acrescenta -. Se legalmente uma propriedade se justifica, o governo turco reconhece-a. Ou seja, estes casos, além de ser políticos, também são administrativos. E nisso, aqui como em outros lugares, devemos cumprir com os requisitos legais".
"Quanto ao reconhecimento jurídico, é verdade que temos algumas desvantagens; às vezes os problemas não são fáceis de resolver. Cada caso é diferente e cada um deve encontrar o seu próprio caminho de reconhecimento, mas esse aspeto não é a nossa principal preocupação, mas sim viver como autênticos cristãos neste país predominantemente muçulmano".


O Islão está a monopolizar os espaços

A visita do Papa Francisco, a quarta de um Pontífice romano à Turquia - precedida por Paulo VI (1967), João Paulo II (1979) e Bento XVI (2006) - acontece num momento de especial tensão no Médio Oriente, onde o avanço do terrorismo do Estado Islâmico (EI) na Síria e no Iraque provocou a fuga de um grande número de muçulmanos e cristãos para os países vizinhos. Tradicionalmente, a convivência entre cristãos e muçulmanos neste país euro-asiático tem sido pacífica, embora tenha havido episódios condenáveis de violência anticristã, como o assassinato do padre Andrea Santoro, em 2007, a que se seguiu, em 2010, o bispo Mons. Luigi Padovese, que já havia alertado sobre a ameaça do fundamentalismo islâmico.

"Na Turquia pode-se coexistir sem problemas - garante-nos Frei Ruben Tierrablanca-; os grupos muçulmanos radicais são muito pequenos e insignificantes, e estão bem controlados. A grande maioria das pessoas são respeitadoras, e nós também as respeitamos".

O novo contexto, no entanto, parece revelar alguns sinais de radicalização, especialmente quando se conhecem informações sobre o dissimulado apoio de Ancara ao avanço do EI e sobre o interesse que despertou na Turquia a ideia do "Califado" proclamada por esse grupo.

  Os grupos muçulmanos radicais são muito pequenos e insignificantes, e estão bem controlados

Além disso, a consolidação no poder do pró-islâmico Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), à frente do país desde 2002, tem sido acompanhada por sinais como a decisão do governo de suspender a proibição de usar o véu nas escolas, bem como a abertura de dezenas e dezenas de novas escolas islâmicas, a inauguração de mais lugares de oração - brinca-se com a ideia de transformar em mesquita o Museu de Santa Sofia em Istambul, enquanto que a igreja de Iznik (Niceia, sede do concilio do ano 325) é mantida como local de culto muçulmano -, e a implementação de maiores restrições à venda e consumo de álcool, o qual não pode ser comercializado a menos de cem metros de uma mesquita, sendo quase impossível estar num sitio onde não haja alguma.

Num país que durante décadas procurou assegurar com zelo a natureza secular do Estado, tais decisões poderão ser sinais de alterações demasiado bruscas.


Pedro visita André

O abraço fraterno entre o Papa Francisco e o Patriarca Ecuménico da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu I, no Santo Sepulcro de Jerusalém, em maio passado, terá ocasião de ser reeditado em Istambul nos últimos dias de novembro.

De modo um tanto parecido ao que acontece com a Igreja latina, a Igreja ortodoxa grega, com cerca de 4000 fiéis no país euroasiático, não teve facilidades historicamente nas suas relações com as autoridades turcas. O gesto anunciado -e incompleto- da devolução das propriedades confiscadas pela República, e o convite a que Bartolomeu I apresentasse os seus pontos de vista e as suas queixas perante a comissão parlamentar encarregada de elaborar uma nova Constituição foram vistos como progressos nessas relações.

No entanto, Ancara insiste em não reconhecer carácter ecuménico ao seu Patriarcado, e não devolveu à Igreja o seminário Halki, de Istambul, encerrado em 1971, o que obriga os futuros sacerdotes a sair e estudar no estrangeiro.
A visita de una figura com a qualidade moral de Francisco é, neste contexto de contrariedades "de baixa intensidade", um respaldo total "de Pedro a André", além de una evidência da vontade firme de superar divisões antigas e improdutivas. Uma atitude boa que se espalha por outros.

"As relações ecuménicas entre as Igrejas podem ser classificadas como muito favoráveis para todos -refere o Vigário Frei Ruben Tierrablanca-; não quer dizer que sejam ótimas, mas na Turquia, e nomeadamente em Istambul, nós, os católicos, podemos relacionar-nos com muita confiança e amizade com as Igrejas ortodoxas e com as Igrejas protestantes.

Sinal claro e significativo é que, desde há vários lustros, todos os anos se realiza uma peregrinação ecuménica durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos -em 2015 vai ser de 17 a 24 de janeiro-, em que se percorrem comunidades de gregos ortodoxos, de arménios apostólicos (chamados gregorianos), de sírios ortodoxos, de protestantes de diferentes denominações, e de católicos, que somos nós. A presença das diferentes igrejas nos momentos importantes de cada comunidade é um facto comum entre nós".

Esse é o género de ações concretas que o Papa aplaude e anima. Seguramente, a sua presença itinerante numa terra que testemunhou os primeiros passos da Igreja de Jesus, irá persuadir mais de um cristão local que o desejo divino de "que todos seja um, para que o mundo creia" é, mais que um mandato, uma bênção de valor incalculável.

Luis Luque