Nas Filipinas, o país com mais católicos de toda a Ásia, o Pontífice dirigiu-se às famílias para lhes pedir que rezem em comum, que "saiam das casas" e vão ao encontro dos mais necessitados, em especial das crianças órfãs e dos anciãos sós, e que resistam às ideologias colonizadoras que procuram destruir a instituição familiar.

Tais correntes, sublinhou, não nascem "do encontro com Deus, da missão que Deus nos dá. Vêm de fora, por isso digo que são colonizações (...) E assim como os nossos povos num dado momento da sua história chegaram à maturidade de dizer não a qualquer colonização política, como família temos que ser muito sagazes, hábeis, fortes, para dizer não a qualquer intento de colonização ideológica sobre a família".

Protegei as vossas famílias

  "Temos que ser muito sagazes, hábeis, fortes, para dizer não a qualquer intento de colonização ideológica sobre a família."

Ante os milhares de famílias que o receberam a 16 de janeiro no Palácio dos Desportos de Manila, o Santo Padre esboçou a situação que atravessa a instituição no país, afectada por factores como a separação dos seus membros por causa da migração laboral, a estrema pobreza que padecem demasiadas pessoas, o materialismo, e certo estilo de vida que destrói a vida familiar e as exigências da moral cristã. Nesse sentido mencionou o crescente intento por parte de alguns, de redefinir o matrimónio, guiados pelo relativismo, a cultura do efémero e a falta de abertura à vida.

"Toda a ameaça à família é uma ameaça à própria sociedade - assegurou Francisco -. Como afirmava frequentemente São João Paulo II, o futuro da humanidade passa pela família. O futuro passa pelas famílias. Assim pois, protegei as vossas famílias! Protegei as vossas famílias!"

Precisamente sobre este tema, o Pontífice tinha recordado, no seu discurso às autoridades do país, a "missão indispensável" da família na sociedade, por ser o contexto em que se formam os novos cidadãos. "Mas tal como todos os dons de Deus, a família também pode ser desfigurada e destruída. Necessita do nosso apoio".

A corrupção rouba recursos aos pobres

Também no seu encontro com as autoridades no Palácio Presidencial, Francisco referiu a necessidade de que os líderes políticos se distingam pela sua honestidade e compromisso com o bem comum. Nesta linha, o Papa condenou qualquer forma de corrupção, que só serve para subtrair recursos aos mais desfavorecidos e perpetuar a pobreza e a exclusão. Para superar estes desequilíbrios, apelou à conversão da mente e do coração.

 "As comunidades cristãs estão chamadas a criar redes de solidariedade que se expandam até abraçar e transformar a sociedade" 

A Igreja local também teria muito que trazer a esta renovação, pelo que na sua homilia na Catedral de Manila, no dia 16, Francisco validou a posição do episcopado local. "Como os bispos das Filipinas têm justamente ensinado, a Igreja está chamada a reconhecer e combater as causas da desigualdade e a injustiça profundamente arraigada, que deformam o rosto da sociedade filipina, contradizendo claramente os ensinamentos de Cristo. O Evangelho chama cada cristão a uma vida de honestidade, integridade e interesse pelo bem comum. Mas também chama as comunidades cristãs a criar «círculos de integridade», redes de solidariedade que se expandam até abraçar e transformar a sociedade mediante o seu testemunho profético".

Em sintonia com isto, alertou para o "grande perigo" que constitui o materialismo, capaz de comprometer negativamente o testemunho que os cristãos oferecem: "Só se chegarmos a ser pobres, e eliminarmos a nossa complacência, seremos capazes de nos identificarmos com os últimos dos nossos irmãos e irmãs. Veremos as coisas sob uma nova perspectiva e assim responderemos com honestidade e integridade ao desafio de anunciar a radicalidade do Evangelho numa sociedade acostumada à exclusão social, à polarização e à iniquidade escandalosa".

Na devastada Tacloban: "Jesus não decepciona"

Talvez o momento mais emocionante da visita papal ao arquipélago filipino tenha sido a sua breve estadia no dia 17 de janeiro na cidade de Tacloban, o sítio mais atingido pelo furacão Yolanda há ano e meio. Aos milhares de pessoas reunidas debaixo de chuva e sob a ameaça de um novo tufão, Francisco confessou-lhes o seu grande desejo de ali estar, depois de ver a destruição causada pelo fenómeno meteorológico de novembro de 2013.

Ao constatar o sofrimento de milhares de pessoas afectadas na catástrofe, o Papa transmitiu-lhes o seu pesar e animou-os na esperança. "Tantos de vós perdestes tudo. Eu não sei que vos dizer. Ele (Cristo) sabe o que vos dizer. Tantos de vós perdestes parte da família... Só guardo silêncio. Acompanho-vos com o meu coração em silêncio. Tantos de vós haveis perguntado olhando a Cristo 'porquê Senhor?' E a cada um, o Senhor responde ao coração desde o seu coração".

 Aos jovens: "Para serdes sábios, usai as três linguagens: pensar bem, sentir bem e fazer bem" 

Em circunstâncias materiais que levam ao desespero, o Santo Padre convida todos a olhar para Jesus: "Ele é o Senhor e ele compreende-nos, porque passou por todas as provas que nos acontecem. E junto a ele, na cruz, estava a Mãe".

Também felicitou a pronta resposta solidária de muitas pessoas após a devastação. "Temos muitos irmãos - assegurou - que neste momento de catástrofe vieram ajudar-nos. E também nós nos sentimos mais irmãos porque nos temos ajudado uns aos outros. Isto é o que unicamente consigo dizer-vos. Perdoai-me se não tenho outras palavras. Mas estai certos de que Jesus não decepciona. Tende a certeza de que o amor e a ternura da nossa Mãe não decepcionam".

Aos jovens: "Deixai-vos surpreender por Deus"

Também com os jovens o Papa teve um encontro no Domingo, dia 18, na Universidade de São Tomás de Manila. Praticar a empatia, fazer-se mais sábios que eruditos, abrir-se à surpresa do amor de Deus, foram vários dos conselhos que lhes ofereceu na sua alocução, o Bispo de Roma.

Na Liturgia da Palavra, Francisco escutou a interrogação que uma menina de 12 anos, Glyzelle Palomar, colocou ante o auditório de 30.000 fiéis: "Há muitas crianças abandonadas pelos seus próprios pais, muitas vítimas de muitas coisas terríveis como a droga ou a prostituição. Por que permite Deus estas coisas que não são culpa das crianças? Por que há tão poucas pessoas que nos venham ajudar?".

O Pontífice diz que o sofrimento das crianças é a grande interrogação: "Quando o coração é levado a fazer a pergunta e a chorar, podemos entender algo. Existe uma compaixão mundana, que não nos serve para nada. Vós falastes algo de isso. Uma compaixão que nos leva a levar a mão ao bolso e dar uma moeda. Se Cristo tivesse tido essa compaixão, teria passado, curado três ou quatro, e teria voltado para o Pai. Só quando Cristo chorou e foi capaz de chorar, entendeu os nossos dramas ".

  No Sri Lanka: "Espero que a cooperação inter-religiosa e ecuménica demonstre que os homens e as mulheres não têm que renunciar à sua identidade, quer seja étnica ou religiosa, para viver em harmonia"

"Queridos rapazes e raparigas, ao mundo de hoje faz falta chorar. Choram os marginalizados, choram os que são deixados de lado, choram os desprezados... mas os que levamos uma vida mais ou menos sem necessidades, não sabemos chorar. Certas realidades da vida só se veem com os olhos limpos pelas lágrimas".

Neste sentido animou os jovens a sentir como própria a dor de uma criança com fome, de um rapaz drogado, ou sem lar, ou abusado, ou escravizado. "Ou o meu pranto é o pranto caprichoso daquele que chora porque gostaria de ter algo mais? (...) Aprendamos a chorar como ela nos ensinou hoje".

Instou-os a abrirem-se à surpresa de Deus - "Deus é o Deus das surpresas porque ele sempre nos amou primeiro" sublinhou - e a não ter a "psicologia do computador".

"Pensemos em São Francisco. Deixou tudo. Morreu com as mãos vazias, mas com o coração cheio. De acordo? Não jovens de museu, mas jovens sábios. E para serem sábios, usai as três linguagens: pensar bem, sentir bem e fazer bem. E para ser sábios deixai-vos surpreender pelo amor de Deus. E andai e incendiai a vida", convidou.

Sri Lanka: a verdade como via para a reconciliação

Antes da sua visita às Filipinas, o Pontífice tinha pisado a terra no Sri Lanka, país que foi enlutado por uma guerra civil que enfrentou a minoria tâmil (de religião hindu) e a maioria cingalesa (budista), entre 1983 e 2009. Os mais de 700.000 mortos resultantes tornam árduo o propósito de fechar as feridas do conflito.

Na chamada "Pérola do Índico", onde chegou a 13 de janeiro, Francisco lamentou a constante tragédia da guerra no mundo. No caso da multiétnica república asiática, assinalou ante os seus anfitriões governamentais, que "não é tarefa fácil" superar o amargo legado de injustiças e desconfianças que o conflito deixou, e respaldou indiretamente o desejo de vários sectores de criar uma instância que investigue os crimes e os desaparecimentos.

"(A confiança) só se pode conseguir vencendo o mal com o bem (cf. Rm 12,21) e mediante o cultivo das virtudes que favorecem a reconciliação, a solidariedade e a paz. O processo de recuperação deve incluir também a busca da verdade, não com o fim de abrir velhas feridas, mas como um meio necessário para promover a justiça, a recuperação e a unidade".

A ideia do perdão foi retomada pelo Santo Padre durante a sua alocução, em 14 de janeiro no Santuário de Nossa Senhora de Madhu. "Aqui vêm os habitantes de Sri Lanka, tanto tâmiles como cingaleses, como membros de uma só família. Encomendam a Maria as suas alegrias e tristezas, as suas esperanças e necessidades. Aqui, na sua casa, sentem-se seguros. Sabem que Deus está muito perto; sentem o seu amor; conhecem a sua ternura e misericórdia".

O Pontífice acrescentou que unicamente quando, à luz da Cruz, o ser humano entende o mal que é capaz de fazer, pode experimentar o verdadeiro arrependimento. "Só então poderemos receber a graça de nos acercarmos uns aos outros, com uma verdadeira contrição, dando e recebendo o perdão verdadeiro. Nesta difícil tarefa de perdoar e ter paz, Maria está sempre presente para nos animar, para nos guiar, para nos mostrar o caminho".

Pela liberdade religiosa e a colaboração interconfessional.

Durante a sua estadia na ilha, o Papa argentino canonizou o beato José Vaz, apóstolo do Ceilão, que, no tempo da ocupação holandesa da ilha (1656-1796), manteve a assistência sacramental aos católicos que continuaram a praticar a sua fé clandestinamente. Dele, louvou o seu "amor indiviso", que o levou a servir os necessitados "quaisquer que fossem onde quer que estivessem. O seu exemplo continua a ser uma fonte de inspiração para a Igreja do Sri Lanka., que serve com agrado e generosidade todos os membros da sociedade".

Por outro lado, Francisco não perdeu a oportunidade de formular um voto pelo necessário respeito da liberdade religiosa. "Queridos amigos - disse às autoridades pouco depois da sua chegada ao país - estou convicto de que os crentes das diferentes tradições religiosas têm um papel essencial no delicado processo de reconciliação e reconstrução que se está levando a cabo neste país. Para que o processo tenha êxito, todos os membros da sociedade devem trabalhar juntos; todos hão de ter voz. Todos hão de se sentir livres de expressar as suas inquietações, as suas necessidades, as suas aspirações e os seus temores. Mas o mais importante é que todos devem estar dispostos a aceitar-se mutuamente, a respeitar as legítimas diferenças, e a aprender a viver como uma única família".

Mais adiante, num encontro com os líderes das maiores comunidades religiosas do país - budista, hindu, islâmica e cristã - reafirmou o profundo e permanente respeito da Igreja Católica pelas demais religiões; um espírito em que a instituição "deseja cooperar convosco e com todos os homens de boa vontade na busca da prosperidade de todos os cidadãos do Sri Lanka".

Durante muitos anos, os homens e as mulheres deste país têm sido vítimas de conflitos civis e violência. O que é necessário agora é a recuperação da unidade, não novos enfrentamentos e divisões. (...) Espero que a cooperação inter-religiosa e ecuménica demonstre que os homens e as mulheres não têm que renunciar à sua identidade, étnica ou religiosa, para viver em harmonia com os seus irmãos e irmãs".

Mesmo assim, assinalou que, "pelo bem da paz", não se deve permitir que as crenças religiosas sejam manipuladas para justificar a guerra. "Temos que exigir às nossas comunidades com clareza e sem equívocos, que vivam plenamente os princípios da paz e da convivência que se encontram em cada religião e denunciar os atos de violência que se cometem", precisou.

Aceprensa