Na terra que foi berço de S. Paulo e que acolheu os sete primeiros concílios da Igreja, o Pontífice recordou às autoridades turcas que "é fundamental que os cidadãos muçulmanos, judeus e cristãos gozem, tanto nas disposições da lei como na sua aplicação efetiva, dos mesmos direitos e que respeitem as mesmas obrigações", uma dinâmica que pode favorecer o diálogo inter-religioso e intercultural.

É necessário - assinalou na presença do presidente Recep Tayyip Erdogan - contrapor ao fanatismo, ao fundamentalismo e às fobias irracionais, que alimentam a incompreensão e a discriminação, a solidariedade de todos os crentes.

Por outro lado, em alusão à grave situação criada no Médio Oriente pelo avanço de um grupo terrorista que se apropriou dos signos do Islão, o Pontífice reiterou que "é lícito deter o agressor injusto, ainda que respeitando sempre o direito internacional", se bem que tenha precisado que não se pode confiar a resolução à mera resposta militar.

Obrigação de denunciar o terrorismo

Num encontro posterior com Mehmet Gormez, presidente da Diyanet (a Presidência para os Assuntos Religiosos da Turquia), o Papa recordou que "os dirigentes religiosos têm a obrigação de denunciar as violações da dignidade e dos direitos humanos".

O diálogo entre os líderes religiosos, referiu, tem a importância de que envia uma "mensagem clara" às respetivas comunidades de que o respeito mútuo e a amizade são possíveis, apesar das diferenças. O Pontífice disse ao seu interlocutor que, como dirigentes religiosos, "temos a obrigação de denunciar todas as violações da dignidade e dos direitos humanos", e que as manifestações violentas que se escudam em razões "religiosas" merecem a mais enérgica condenação.
De acordo com este tema, Francisco aproveitou a ocasião para expressar o seu apreço "por tudo o que o povo turco, os muçulmanos e os cristãos estão fazendo a favor dos milhares de pessoas que fogem dos seus países por causa dos conflitos". A comunidade internacional, tinha sublinhado previamente, tem a obrigação moral de ajudar a Turquia na atenção que está prestando aos refugiados sírios e iraquianos, que fugiram das suas casas ante o avanço yihadista. Precisamente, antes de regressar a Roma a 30 de novembro, o Pontífice encontrou-se com um grupo de crianças e jovens refugiados sírios, iraquianos, turcos e africanos, acolhidos num centro salesiano, a quem transmitiu o seu afeto e consolo em tão difícil situação.

Por outro lado, num gesto palpável da proximidade que quis mostrar aos muçulmanos, o Papa visitou, no segundo dia da sua estada na Turquia, a monumental Mesquita Azul, um edifício levantado no século XVII, de grande beleza arquitetónica e relevância para a comunidade islâmica local. Um momento de oração em silêncio, e a exortação final ao seu anfitrião, o Gran Mufti, de dar graças a Deus, foi o final do percurso.

A igreja, disposta a um serviço de amor

Um momento de especial significado foi a celebração da Eucaristia na Catedral católica do Espírito Santo, em cujo altar se preservam as relíquias do papa S. Lino (primeiro sucessor de S. Pedro), e que está aberta ao culto desde 1846.

Ante a comunidade de fiéis, Francisco referiu que "só o Espírito Santo pode suscitar a diversidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, produzir a unidade. Quando somos nós que desejamos criar a diversidade, e nos encerramos nos nossos particularismos e exclusivismos, provocamos a divisão; e quando queremos fazer a unidade segundo os nossos planos humanos, acabamos por implantar a uniformidade e a homogeneidade".

"As nossas defesas - acrescentou - podem manifestar-se numa confiança excessiva nas nossas ideias, nas nossas forças, mas assim se deriva até ao pelagianismo; ou numa atitude de ambição e vaidade. Estes mecanismos de defesa impedem-nos de compreender verdadeiramente os outros e estar aberto a um diálogo sincero com eles. Mas a Igreja que surge no Pentecostes recebe em custódia o fogo do Espírito Santo, que não enche tanto a mente de ideias, mas faz arder o coração; é investida pelo vento do Espírito que não transmite um poder, mas que dispõe para um serviço de amor, uma linguagem que todos podem entender".

A Eucaristia foi concelebrada por 50 sacerdotes, na presença de religiosos e religiosas que trabalham na região e de algumas comunidades paroquiais. Além do vigário apostólico, Mons. Louis Pelâtre, na celebração estiveram presentes o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I, o Patriarca siro-católico Ignazio III Younan, o Vigário Patriarcal armeno-apostólico de Istambul, Aram Ateshian, o Metropolita siro-ortodoxo de Istambul, e representantes de algumas confissões evangélicas.

O desejo de alcançar a unidade entre as Igrejas de Roma e de Constantinopla recebeu uma maior consolidação com a oração conjunta de Francisco e o Patriarca Bartolomeu I na igreja de S. Jorge, sede do Patriarcado Ecuménico, durante a segunda jornada do Papa no país euro-asiático.

O Pontífice romano pediu ao Patriarca ortodoxo que o abençoasse a ele e à Igreja de Roma, e inclinou-se ante o sucessor de Santo André. Ambos oraram pela unidade das Igrejas de Deus e rezaram um Pai Nosso em latim e em grego respetivamente.

Bartolomeu I, ao recordar as visitas a Istambul dos papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI constatou a "vontade da Santíssima Igreja de Roma de continuar o firme caminho fraternal com a nossa Igreja Ortodoxa", e pediu encontrar novamente a plena comunhão entre ambas as comunidades.

Por seu lado, o Papa Francisco manifestou a sua alegria pela graça de poder "caminhar juntos nesta esperança, apoiados pela intercessão dos santos irmãos, os apóstolos André e Pedro. E saber que esta esperança comum não dececiona, porque não se funda em nós e nas nossas pobres forças, mas na fidelidade de Deus.

Unidade baseada na fé comum

No último dia da sua visita apostólica, que coincidiu com a festa litúrgica do apóstolo Santo André, Francisco e Bartolomeu I assistiram à Divina Liturgia em São Jorge. Ali, o Papa destacou que, por coincidência, a sua presença em Istambul tem lugar meio século depois da promulgação do Decreto do Concílio Vaticano II sobre a busca de unidade entre todos os cristãos, Unitatis redintegratio, com o qual a Igreja reconheceu que as Igrejas ortodoxas "têm verdadeiros sacramentos e, sobretudo, em virtude da sucessão apostólica, o sacerdócio e a Eucaristia com os que se unem ainda connosco com vínculo estreitíssimo" (nº15).

Para alcançar o almejado objetivo da plena unidade - acrescentou o Pontífice argentino -, a Igreja Católica não pretende impor nenhuma exigência, salvo a profissão de fé comum; e que estamos dispostos a procurar juntos, à luz do ensinamento da Escritura e da experiência do primeiro milénio, as modalidades com que se garanta a necessária unidade da Igreja nas atuais circunstâncias: o que a Igreja Católica apenas deseja, e que eu busco como Bispo de Roma, "a Igreja que preside na caridade", é a comunhão com as Igrejas ortodoxas.
Neste espírito de fraternidade, Francisco e Bartolomeu I assinaram uma Declaração Conjunta em que se dizem decididos, firme e sinceramente, a "intensificar os nossos esforços para promover a plena unidade de todos os cristãos e, sobretudo, entre católicos e ortodoxos. Além disso, queremos apoiar o diálogo teológico promovido pela Comissão Mista Internacional que (...) está atualmente a tratar as questões mais difíceis que marcaram a história da nossa divisão e que exigem um estudo cuidadoso e detalhado".

Também, ambos os líderes fizeram um apelo aos responsáveis políticos para que intensifiquem o seu compromisso com as comunidades que sofrem os efeitos da guerra não longe das fronteiras turcas. "Não podemos resignar-nos a um Médio Oriente sem cristãos, que professaram ali o nome de Jesus Cristo durante 2.000 anos. (...) A terrível situação dos cristãos e de todos os que estão sofrendo no Médio Oriente não só requer a nossa oração constante, mas também uma resposta adequada por parte da comunidade internacional".

Francisco e Bartolomeu I coincidiram, além disso, na importância de promover um diálogo construtivo com o Islão, baseado no respeito mútuo e na amizade, e elevaram a sua oração pela paz na Ucrânia, "um país com uma antiga tradição cristã", em que animam todas as partes a que continuem o caminho do diálogo e do respeito ao direito internacional, com o objetivo de pôr fim ao conflito.

Aceprensa