Direitos humanos

É de importância vital aprofundar hoje uma cultura dos direitos humanos que possa unir sabiamente, a dimensão individual, ou, melhor, pessoal, com o bem comum, com esse «nós todos» formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se juntam na comunidade social. Efetivamente, se o direito de cada um que não está, harmoniosamente, ordenado para um bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, consequentemente transformar-se numa fonte de conflitos e violências.

[Ao Conselho da Europa:] A verdade apela à consciência (...). Sem esta busca da verdade, cada um converte-se em medida de si mesmo e dos seus actos, abrindo caminho a uma afirmação subjectiva dos direitos pelo que o conceito de direito humano, que tem em si mesmo um valor universal, que é substituído pela ideia de direito individualista. Isto leva a negligenciar profundamente os outros e a fomentar essa globalização da indiferença que nasce desse egoísmo, fruto de um conceito do homem incapaz de acolher a verdade e viver uma autêntica dimensão social.

Solidariedade

Falar da dignidade transcendente do homem significa apelar à sua natureza, à sua capacidade inata de distinguir o bem do mal, essa bússola gravada nos nossos corações que Deus imprimiu no universo criado, e que significa, sobretudo, olhar o homem não como um ser absoluto, mas como um ser relacional. Uma das enfermidades que mais aumentou na Europa, actualmente, foi a solidão, própria de quem não tem qualquer laço. Vê-se, em especial, nos idosos frequentemente abandonados ao seu destino, como também nos jovens sem quaisquer referências e oportunidades para o futuro; vê-se igualmente nos numerosos pobres que povoam as nossas cidades e vê-se nos olhos perdidos dos imigrantes que vieram para aqui (Europa) em busca de um futuro melhor.

(...) A isto tudo associam-se alguns estilos de vida de certo modo egoístas, caracterizados por uma opulência insustentável e, frequentemente, indiferente ao mundo que a rodeia e, sobretudo, aos mais pobres. Com muita amargura constata-se o predomínio das questões técnicas e económicas no centro do debate político em detrimento de uma orientação antropológica autentica. O ser humano corre o risco de ser considerado uma mera engrenagem de um mecanismo que o considera um simples bem de consumo para ser utilizado de modo que - lamentavelmente, encontramo-lo com frequência - quando a vida já não serve para o referido mecanismo descartam-na sem quaisquer problemas, como no caso dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem receber atenções, ou das crianças assassinadas antes de nascer.

Afirmar a dignidade da pessoa significa reconhecer o valor da vida humana, que nos é dada gratuitamente e, por isso, não pode ser objecto de troca ou de comércio. Vós, com a vossa vocação de parlamentares, sois chamados também a uma grande missão. embora possa parecer inútil: Preocupar-se com a fragilidade, com a fragilidade dos povos e das pessoas. Cuidar da fragilidade quer dizer força e ternura, luta e fecundidade num meio funcionalista e privatisante que leva inexoravelmente à «cultura do descarte».

Transcendência

[O fresco A Escola de Atenas, de Rafael] parece-me uma imagem que descreve bem a Europa na sua história, feita de um permanente encontro entre o céu e a terra, em que o céu indica a abertura ao transcendente, a Deus, que caracterizou desde sempre o homem europeu e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de afrontar as situações e problemas.

O futuro da Europa depende da redescoberta do nexo vital e inseparável entre estes dois elementos. Uma Europa que não é capaz de se abrir à dimensão transcendente da vida é uma Europa que corre o risco de perder lentamente a própria alma e também aquele «espírito humanista», que, sem dúvida, ama e defende.

É precisamente a partir da necessidade de uma abertura à transcendência que desejo afirmar a centralidade da pessoa humana, que - de outro modo - estaria nas mãos da moda e poderes do momento. Neste sentido, considero fundamental não só o património que o cristianismo deixou do passado para a formação cultural do continente, mas, sobretudo, a contribuição que pretende dar hoje e no futuro para o seu crescimento. A referida contribuição não constitui um perigo para a laicidade dos Estados e para a independência das instituições da União, mas é um enriquecimento. Mostram-nos os ideais que adoptaram desde o princípio, como são: a paz, a subsidiariedade, a solidariedade recíproca e um humanismo centrado no respeito da dignidade da pessoa.

(...) Estou, igualmente convencido de que a Europa capaz de apreciar as próprias raízes religiosas, sabendo aproveitar a sua riqueza e potencialidade, pode ser mais facilmente imune a tantos extremismos que se expandem pelo Mundo actual, também pelo grande vazio no âmbito dos ideais, como vemos no assim chamado Ocidente, porque «é precisamente este esquecimento de Deus, em vez da sua glorificação, o que gera a violência».

[Ao Conselho da Europa:] Nesta lógica inclui-se a contribuição que o cristianismo pode trazer hoje ao desenvolvimento cultural e social europeu no âmbito de uma relação correta entre religião e sociedade. De acordo com a visão cristã, razão e fé, religião e sociedade são convocadas a iluminar-se uma à outra, apoiando-se mutuamente, se for necessário, purificando-se reciprocamente dos extremismos ideológicos em que podem cair. Toda a sociedade europeia irá beneficiar de uma relação reforçada entre os dois campos, quer para fazer frente a uma fundamentalismo religioso que é, efetivamente, inimigo de Deus, quer para evitar uma razão «reduzida» que não honra o homem.

Manter viva a democracia na Europa

(...) Não podemos esconder que uma concepção uniformizadora da globalidade prejudica a vitalidade do sistema democrático, enfraquecendo o contraste rico, fecundo e construtivo das organizações e e dos partidos políticos entre si. Desta forma, corre-se o risco de viver no reino da ideia, da mera palavra, da imagem, do sofisma... e que acaba por confundir a realidade da democracia com um novo nominalismo político.

Manter viva a realidade das democracias é um desafio neste momento histórico, evitando que a sua força real - força política expressiva dos povos - seja desalojada por força das pressões de interesses multinacionais não universais, que as tornam mais fracas e as transformam em sistemas uniformizadores do poder financeiro ao serviço de impérios desconhecidos.

Aceprensa