Um relatório recente da OCDE, intitulado Tackling Harmful Alcohol Use, procura quantificar todos esses efeitos negativos e propõe medidas para os reduzir. Os dados apresentados sobre o consumo dão-nos também uma imagem de como atualmente se bebe.
  
  Os cidadãos com maior poder de compra bebem mais e com mais frequência; os pobres, por seu lado, incorrem mais amiúde em comportamentos de risco

Nos países da OCDE, cada adulto consome por ano o equivalente a nove ou dez litros de álcool puro. O número permaneceu estável nos últimos vinte anos. Os países em que mais se bebe são os europeus, com a Estónia, a Áustria e a França à cabeça. Os não europeus - à exceção da Nova Zelândia - situam-se abaixo da média.

No entanto, os dados sobre a evolução nas últimas décadas mostram que a diferença entre as diversas regiões está a diminuir: o centro da Europa é ainda a região que mais consome, mas o consumo anual por adulto aumentou drasticamente desde 1990 em países como a Rússia, a China, a Índia, Israel e o Brasil, a par da região escandinava e da Polónia, onde se bebe quase tanto como na Alemanha. Pelo contrário, desceu cerca de 20% na Alemanha e em França, Portugal e Espanha.

Os números da OCDE são superiores à média mundial (6,2 litros por adulto), em parte porque esta organização agrupa apenas países do primeiro mundo, onde há mais recursos para comprar álcool. O mesmo se pode também comprovar a nível nacional: os cidadãos com maior poder de compra bebem mais e com maior frequência. Os pobres, por seu turno, incorrem mais em condutas de risco que, no que se refere às mulheres - em geral menos dadas a beber, ao consumo intensivo ou a embriagar-se - são no entanto mais comuns entre mulheres mais ricas e com melhor educação.

Consumo concentrado

Desde o princípio dos anos 90 que o consumo intensivo diminuiu em quase todos os países analisados, mais em homens que em mulheres (o nível de que se partia era neles muito superior). Chama a atenção o pronunciado decréscimo na Irlanda e na Alemanha. Aumentou no entanto fortemente na Austrália (homens e mulheres) e no Reino Unido (apenas mulheres). Também a frequência com que se embriagam decresce na maior parte dos países: uma vez mais, a Irlanda e a Austrália representam polos opostos desta tendência.

Como explica o relatório, a associação entre pobreza e comportamentos de risco - por sua vez relacionados com o crime e a violência - não foi ainda estudado em profundidade. Uma explicação para isso poderia residir no facto de nas zonas desfavorecidas existir maior número de locais onde comprar álcool. Os tipos de consumo associados a este tipo de venda (em supermercados e não em bares) predispõem mais à ingestão imoderada.

  Dois fenómenos muito associados ao excesso no consumo de álcool são a violência doméstica e o abuso sexual

Uns 20% dos que ingerem álcool, aqueles que o estudo denomina "bebedores inveterados", são responsáveis pela maior parte do consumo mundial, e a tendência está a reforçar-se. Existem contudo diferenças por país: na Hungria e nos Estados Unidos concentram-se 90% e 75% do total, ao passo que em França ou na Espanha mal chegam aos 60%.

Quantificando danos

O relatório da OCDE baseia-se em alguns estudos nacionais destinados a avaliar os custos económicos do álcool. Têm em conta as despesas hospitalares, a contribuição que os mortos deixam de trazer à riqueza nacional, o decréscimo da produtividade laboral e as quantias a pagar por comportamentos criminosos associados ao consumo de álcool (restauro de propriedade, despesas de defesa e detenção, etc.). Nos países analisados, o custo total suporia entre 1,5% e 3,3% do PIB. Os autores fazem no entanto notar que também deviam ser tidos em conta os efeitos económicos positivos relacionados com as doenças cardiovasculares ou com a o contributo do sector para a economia (no Reino Unido, por exemplo, totalizam 1,7% do PIB).

Dois fenómenos muito associados ao consumo excessivo de álcool, que supõem por ano uma despesa significativa e uma grave ferida social, e cujas vítimas são fundamentalmente mulheres, são a violência doméstica e as agressões sexuais. A primeira, segundo diversas investigações, sofrem-na mais as mulheres cujo companheiro bebe intensivamente. Quanto ao segundo, um estudo realizado na Inglaterra e no País de Gales indica que 40% das vítimas de abuso sexual pensava que o seu agressor estava sob o efeito do álcool, e quase duas em cada três reconhecia estarem-no elas também.

Os jovens, grupo que inspira especial preocupação

O relatório reconhece que a literatura científica regista tradicionalmente certos benefícios do consumo moderado do álcool. O gráfico que mostra a relação entre a ingestão e o risco de morte costuma por isso ter a forma de jota: o risco de morte diminui se se beber um pouco (sobretudo pelo efeito positivo que tem em algumas doenças cardiovasculares), mas que aumenta rapidamente quando se ultrapassa certa quantidade e frequência.

 Os jovens andam a beber mais e sobretudo a incorrer mais em comportamentos de risco 

No entanto, não existe entre os jovens efeito jota, pois os benefícios são pouco significativos (têm muito menos problemas de coração), ao passo que o número de outros perigos dispara, especialmente a violência e os acidentes de viação. Além disso, os que começam a beber com pouca idade têm maior tendência para acabarem dependentes e para se converterem em poli-toxicómanos.

Daí que seja especialmente preocupante a tendência, observada em estudos nacionais e internacionais, de os jovens estarem a beber mais e sobretudo a incorrer em mais condutas perigosas. O relatório analisa alguns países, à procura de tendências. O consumo intensivo entre os jovens aumentou na Alemanha, na Suíça e nos Estados Unidos, ao passo que baixou ou se manteve estável no resto da população. A diferença geracional torna-se ainda mais clara quando se estuda a frequência de "bebedeiras": em todos os países analisados, os números mais altos verificam-se entre jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos.

Particularmente inquietante é o comportamento dos menores de idade, especialmente das raparigas. A percentagem das que, aos 15 anos, nunca tinham bebido álcool (30%) ou nunca se tinham embebedado (60%) baixou consideravelmente de 2000 para 2010, tendo-se igualado à dos rapazes.

Políticas que ajudem a todos

O último capítulo do relatório estuda os efeitos de diversas políticas postas em prática no Canadá, na República Checa e na Alemanha. Destas análises extraem os autores várias recomendações aplicáveis noutros países, tendo no entanto a precaução de vincar que "é difícil dar indicações de cariz geral, pois se deve ter em conta a idade, o estatuto socioeconómico e étnico do público" ao qual tais medidas vão dirigidas.

  As campanhas a favor do consumo moderado devem centrar-se prioritariamente nos consumidores intensivos

Uma conclusão clara é que as medidas se devem primeiro centrar nos bebedores intensivos, pois são eles que concentram uma grande parte do consumo e porque provocam muitos dos efeitos negativos secundários associados ao álcool. O mais útil para eles é melhorar a atenção primária nos hospitais: detectar o risco quanto antes e acompanhar o paciente, para que não incorra em comportamentos de risco.

Por último, melhorar a informação dirigida ao público em geral sobre os riscos do álcool (embora o relatório reconheça que as campanhas de consciencialização nas escolas não tenham tido grande efeito). Dever-se-ia insistir particularmente em dois pontos menos conhecidos: a relação entre álcool e cancro e o risco especial que o seu consumo supõe para a mulher grávida.

Aceprensa