Há já uns anos, os romances que publica o francês Michel Houellebecq (Reunião, 1956) vêm acompanhados de acesas polémicas que vão para além do literário. Assim aconteceu com As Partículas Elementares (1998), Plataforma (2003) e, entre outras, O Mapa e o Território. Em Submissão apertou ainda mais o parafuso a este afã iconoclasta ao utilizar o islamismo como o argumento do seu romance.

O narrador e protagonista é François, um professor de literatura da Universidade Paris III-Sorbonne, de quarenta e quatro anos e especialista da obra do escritor Joris-karl Huysmans (1848-1907), a quem dedicou a sua tese.

Na mesma idade, Huysmans converteu-se ao catolicismo e refugiou-se na abadia de Ligugé, em Poitiers, aonde viajará o autor com o fim de encontrar um sentido em tudo o que está a acontecer à sua volta, embora François, solteiro empedernido, não seja católico nem tenha o mínimo interesse pela religião.

A sua vida intelectual está em dique seco e a sua vida amorosa, com frequentes e esporádicas relações sentimentais, encontra-se em crise. Mas o sexo ocupa um lugar importante na vida de François, acima de outros interesses, e volta-se para a sua afeição pela pornografia e prostíbulos, experiências que o autor descreve amplamente de forma mórbida e pormenorizada.

Submissão desenrola-se em 2022 em pleno processo de eleições presidenciais. A Frente Nacional é o partido mais votado na primeira volta; o segundo, o partido dos Irmãos Muçulmanos que, ante o declínio da civilização ocidental, ocupou um crescente espaço político, social e religioso em França e noutros países europeus. A aliança entre o Partido Socialista e os Irmãos Muçulmanos leva a que, na segunda volta, o candidato muçulmano, o moderado Mohammed Bem Abbes, se torne presidente da República, que governará com os socialistas. As mudanças não se fazem esperar e, de modo normal, sem grande choque, começa o processo de transformação da França para os valores muçulmanos.

O mais interessante do romance, na minha opinião, é como reflete a crise a que chegou a civilização ocidental, ao entregar-se a um capitalismo consumista e laicista cheio de experiências vitais light. Neste sentido, a referência ao escritor francês Huysmans, ao seu tédio da vida moderna e o seu refúgio nos valores espirituais, é muito acertada para descrever o clima moral da França tal como o sentem algumas pessoas. Os únicos que combateram estes modos de vida foram os judeus, os católicos e os muçulmanos. Para Houellebecq, não sem ironia, são os muçulmanos que afinal foram mais coerentes e práticos e acabaram por ficar com as rédeas do mundo.

Na análise da situação política e social que faz o autor há muito de provocação, pois o seu diagnóstico é simplista, tal como os efeitos das mudanças e dos resultados. A sua distopia não se situa num futuro longínquo mas dentro de poucos anos, e com isso o romance ganha em eficácia, pois os protagonistas da vida pública são reconhecíveis.

Submissão é, pois, um romance que aproveita o atual debate sobre o futuro da civilização ocidental e o auge do islamismo para refletir, de maneira superficial mas com inquietantes observações, sobre a situação atual. Com um calculado pessimismo, Houellebecq mostra o esgotamento de uns valores (também os de "maio de 68", alvo de muitas das suas críticas), o vazio de uma sociedade cada vez mais hedonista, o desencanto da política e o desgaste de uns modelos políticos e existenciais que pareciam perduráveis.

Adolfo Torrecilla