O jovem professor Bishara Ebeid, doutor em Patrística pelo Instituto Pontifício de Roma falou na Casa Árabe, em Madrid. Veio participar no evento «oriente cristão e mundo árabe». Ele pertence a esse grupo, essa «pequena manada»: é cristão, de origem palestiniana, embora tenha nascido nos arredores de Nazaré, em Israel. Por isso, não deixa de ficar incomodado quando, em sítios como o aeroporto de Tel Aviv, sente o peso da discriminação.
  
  O governo de Benjamin Netanyahu deu aos cristãos árabes a possibilidade de se proclamarem «arameus»

«Vivi na Europa dez anos e, cada vez que tenho de sair de avião de Israel, submetem-se a um controlo exaustivo. Sendo palestiniano israelita, nascido de uma família árabe e, por isso, tenho de ser controlado.» e esperar num terminal especial, enquanto vejo os judeus passar rapidamente. Eu sou um cidadão israelita mas vejo como se duvidassem da minha cidadania. Sim, sinto-me muito discriminado em sítios assim».

De acordo com os dados oficiais, o panorama étnico religioso que apresenta a sociedade israelita, 76% da população é judaica; 16,2% muçulmana e apenas 2,1% é cristã. Contudo, a demografia tem sido uma obsessão dos sucessivos governos do «estado judaico», preocupados porque a população árabe - a de Gaza e Cisjordânia somada à que vive dentro das fronteiras israelitas-, ultrapassa a judaica o que poderá acontecer tão depressa, isto é, já em 2016. Por isso há «movimento»...

Quer ser aramaico?

«Recentemente, houve uma polémica em Israel sobre como lidar com os cristãos, com a sua identidade - refere o Dr. Ebeid - 80% dos cristãos de Israel são árabes israelitas e os restantes 20% são emigrantes de diversas nacionalidades. A esses 80%, o governo de Benjamin Netanyahu deu a possibilidade de constituírem uma nacionalidade separada dentro da população israelita e proclamarem-se «aramaicos». Todos os cristãos em Israel têm agora o direito de ir, mudar e deixar de ser árabe, palestiniano».
«Todavia, ser «aramaico» significaria pertencer a uma nova nacionalidade que não é reconhecida, atualmente, pelo mundo inteiro.

Há, portanto, uma divisão entre os cristãos de Israel entre os que aceitam essa iniciativa e os que não a aceitam. E, ainda, os que consideram a sua história como parte da história da Palestina. Nota-se, assim, que da parte das autoridades israelitas, uma política de «dividir para reinar», uma tentativa para fragmentar a comunidade cristã, sobre a qual haveria um maior controlo separando os cristãos da questão palestiniana de modo a tornar uma questão religiosa. Querem que se diga: isto é um problema entre islamismo e judaísmo e não entre Israel e a Palestina».

O medo dos fundamentalistas muçulmanos

A intenção de diluir a identidade cristã é um dos problemas, todavia, para os seguidores de Jesus que vivem em toda a Palestina histórica existem vários contratempos, dos quais o fato de ser uma minoria não é, de longe, o mais grave.

  «Entre os cristãos palestinianos é evidente a preocupação com a violência que os muçulmanos radicais pudessem desencadear contra eles».

«Nos territórios palestinianos, o problema são os muçulmanos fundamentalistas. Há pavor porque em Gaza, por exemplo, tem havido nestes últimos tempos manifestações de apoio ao Estado Islâmico, em que desfilaram, com a bandeira desse grupo extremista. Deste modo como há simpatizantes de El (Pais Salma, nome alterado, de um professor universitário que vive em Mosul sob o Califado reivindicado pelo Estado Islâmico) também há grupos fundamentalistas em Israel».

«Entre os cristãos palestinianos é evidente a preocupação com a violência que estes radicais poderiam desencadear contra eles e, penso que o que aumenta esse medo são as imagens que vêm do que está a suceder aos cristãos na Síria e no Iraque. Até em Israel há um movimento islâmico que espera que o «califado» de El chegue a Jerusalém e a proclame sua capital. Ouvir este tipo de discursos inflamados faz com que os cristãos sintam que estão com problemas».

Tensões entre as comunidades cristãs

Todavia, os obstáculos não são só externos. Também existem tensões entre as comunidades cristãs da zona, apesar da palavra «unidade» ser palavra gastas na boca de muitos:

«Os cristãos palestinianos pertencem à mesma Igreja: o Patriarcado de Jerusalém, que engloba os três países: Palestina, Israel e Jordânia e, por este motivo, têm fortes laços entre si. Inclusivamente, há famílias cristãs em que uma parte está em território palestiniano, outra parte em Israel e outra na Jordânia. Não obstante, por vezes, há diferenças e um certo antagonismo entre cristãos das diferentes confissões, especialmente entre os cristãos das Igrejas orientais - como os ortodoxos gregos e os arménios - pelo status quo dos Lugares Santos. Tudo isto tem um efeito muito negativo na vida quotidiana que, em vários sítios, querem celebrar juntos as festas da Páscoa e Natal, têm de o fazer em suas casas porque as Igrejas não celebram estas cerimónias litúrgicas nos seus espaços».

«Acredito que a Igreja perde com isto. Os líderes eclesiásticos têm que trabalhar pela unidade dos cristãos e não falar dela, apenas. Os fiéis na Palestina, Israel e todo o Médio Oriente precisam dessa unidade porque têm o mesmo destino. De fato, o El não faz distinção entre católicos e ortodoxos»

No contexto geográfico- religioso tão explosivo, a maior aspiração não pode ser senão a da paz e assim o reconhece o académico palestiniano. «Queremos um bom futuro para os nossos filhos, sem violência de espécie alguma e desejamos que acabe a hostilidade em relação à Palestina. A maioria dos cristãos em Israel quer que o seu país reconheça o outro Estado e, também que se dê a possibilidade aos cristãos israelo-árabes, de voltar às suas antigas aldeias, donde foram expulsos em 1948 e para onde querem regressar, pois o exército israelita nunca lhes deu autorização para isso. SIM: o nosso maior desejo, perante a realidade de tantos crimes e fanatismos, é que haja paz na nossa região. É para isto que nós rezamos».

Luis Luque