Um artigo seu onde que tenta responder a esta pergunta veio juntar-se ao debate aberto entre intelectuais europeus a seguir aos atentados de Paris.
  
  Michael Walzer denuncia a timidez da esquerda em condenar o jiadismo

Walzer, autor de Guerras justas e injustas, bem como de numerosas obras dedicadas à crítica social e ao radicalismo, confessa ter ele próprio medo de qualquer forma de militância ideológica de cariz religioso, em especial a dos "jiadistas". Mas distingue entre os muçulmanos que aplicam a "Jihad da alma" ou esforço interior para manter viva a fé, e os radicais que propugnam a "Jihad da espada". A sua pergunta deriva no entanto de uma observação que nada tem de novo: que os intelectuais considerados progressistas têm mais medo à islamofobia que ao islamismo ideológico.

Ideologia dos oprimidos

A que se deve tal fenómeno? Essa "timidez" de que Walzer acusa os intelectuais pode justificar-se pela "opressão do imperialismo" sofrida pelos povos islâmicos depois da era colonial, razão suficiente para destruir ou atacar tudo quanto cheire a "ocidental", como é o caso do Boko Haram na Nigéria ou do Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

Não quer isto dizer que a maioria desses intelectuais de esquerda apoie os crimes dos "jiadistas". O que Walter considera escandaloso é que a esquerda se negue a tentar sequer uma análise geral do fanatismo islâmico e se contente com desliga-lo da religião, para insistir na sua luta contra o imperialismo ocidental, a opressão e a pobreza, uma espécie de "ideologia dos oprimidos". A este propósito cita o filósofo esloveno Slavoj Zizek, que chegou a afirmar que o radicalismo islâmico mostra "a raiva das vítimas da mundialização capitalista", atitude partilhada pela filósofa americana Judith Butler, que considera os movimentos extremistas do Hamas e do Hezbollah como parte da esquerda mundial.

 Para Slavoj Zizek, o radicalismo islâmico é uma demonstração da "raiva das vítimas da mundialização capitalista" 

Mas onde o debate ganhou maior amplitude foi em França. Ao passo que uns consideram que a multidão que saiu à rua a 11 de janeiro o fez para condenar o terrorismo islâmico, outros afirmam que, no fundo, o que se queria era condenar a população muçulmana instalada nas periferias. A este propósito o ensaísta e antropólogo Emmanuel Todd publicou um livro polémico intitulado "Qui est Charlie?", no qual ataca com dureza o chamado "espírito do 11 de janeiro, ou seja, a suposta condenação do "jiadismo" por parte do que denomina "a França branca" que, a seu ver, é uma máscara do ódio ao islão.

Nova histeria laicista

O filósofo mostra-se convencido de que os manifestantes estavam ali para reafirmar o domínio social das classes médias e altas - "oligarquia de massa", chama-lhes ele - e o seu direito a "cuspir na religião dos fracos" e consolidar a segregação social das populações marginalizadas, em especial dos jovens muçulmanos. Com esta afirmação, Todd infere a existência de uma "subcultura católica periférica" que instiga o advento de uma nova República contrária à igualdade. Ou seja, um "catolicismo zombie", que Todd encarna no mesmíssimo François Hollande. A conclusão a que chega o autor do polémico livro é que não há outro remédio senão combater a "nova histeria laicista" convertida em religião, que fez do islão o bode expiatório ao proclamar o "direito" de caricaturar Maomé.

Outro filósofo francês, Pierre Tevanian, que já tinha há dois anos escrito um ensaio sobre "La haine de la religion", considera que o ateísmo - nesta caso a islamofobia - se converteu no "ópio do povo da esquerda".

Também o jornalista Edwy Plenel - redator-chefe do Le Monde até 2004 - acha que esse ódio ao islão e a quem o pratica não deixa de ser um laicismo intolerante, infiel á laicidade original, bem como expressão de uma rejeição dos oprimidos, aspecto que o analista Alain Gresh, editor do Le Monde Diplomatique, reforça com a aparição na Europa de movimentos nacionalistas e islamófobos.

Valls contra os guardiães do templo da esquerda

Até o próprio primeiro-ministro francês, Manuel Valls, se julgou no dever de entrar no debate para denunciar as "imposturas" de Emmanuel Todd e afirmar que a mobilização sem precedentes do 11 de janeiro foi um espetáculo gigantesco de fraternidade espontânea, embora nela não tivessem tomado parte muitos habitantes de bairros populares.

Valls mostra-se indignado com contra a afirmação de que a manifestação foi um ataque contra a religião, contra o islão.
Não. Para Valls foi um grito pela dignidade, a tolerância e a laicidade, "condição dessa tolerância", bem como um grito lançado contra o "jiadismo" que, em nome de um islão pervertido, ataca o Estado de Direito e os valores democráticos matando judeus, cristãos e muçulmanos.

Neste contexto, Valls defende a liberdade de expressão e consequentemente as caricaturas de Maomé, na medida em que denunciavam crimes cometidos pelo fundamentalismo islâmico, dos quais também os muçulmanos são vítimas. Por último, o primeiro-ministro francês - lembremo-nos de que é socialista - denuncia a tentação populista em moda em que caiu a esquerda, que nas "elites" vê um grupo fundamentalmente "globalista", que atraiçoa o povo na medida em que se submete aos ditames de Bruxelas... Em suma, Valls acusa Todd de se ter erigido, juntamente com outros intelectuais, em guardião do templo da esquerda, habitado apenas pela rebeldia e pelo mito revolucionário.

  Emmanuel Todd ataca com dureza a condenação do jiadismo por parte da "França branca" que, a seu ver, é a máscara do ódio ao islão

Em conclusão, essa esquerda assumiu a defesa dos "fracos" muçulmanos, que converteu em heróis por se terem erguido contra o "capitalismo" e o "imperialismo" dos "fortes". E não deixa de ser contraditório que por um lado ataque a "submissão" dos estados europeus às disposições de Bruxelas e por outro assuma a defesa de quem converteu a vida numa radical submissão a uma suposta vontade divina, interpretada à sua maneira, ou seja, dos "jiadistas".

É claro que no seio desta esquerda não foi pronunciada uma única palavra contra a perseguição das minorias cristãs no Médio Oriente, onde se está a levar a cabo um autêntico genocídio, semelhante ao sofrido pelo povo arménio às mãos dos turcos nos princípios do século passado.

Nesta polémica francesa, pode vir a propósito recordar o caso daquele que foi um dos mais populares intelectuais e dirigentes do comunismo francês do pós-guerra, Roger Garaudy (1913-2012). Apontou algum caminho aos europeus tornando-se muçulmano aos 80 anos, depois de uma efémera conversão ao cristianismo e após ter sido ateu durante largos anos? Seja como for, a sua estrela eclipsou-se quando em 1995 foi condenado em tribunal por negar o Holocausto no seu livro Les mythes fondateurs de la politique israelienne.

Permitam-me uma reflexão: a primeira tarefa do Ocidente é descobrir o verdadeiro rosto do islão e, depois, ajudar os países muçulmanos que - como o Egito - sabem já o que é o extremismo islâmico e reclamaram uma revolução no ensino religioso.

Manuel Cruz