Sissako (mauritano, criado no Mali, formado como cineasta na Rússia) realiza um relato cheio de beleza, excelentemente escrito e rodado, onde apresenta uma visão de um assunto muito doloroso - a devastadora ação do jihadismo - aos olhos dos próprios muçulmanos africanos, vítimas da barbárie de terroristas fanáticos. Pretensos bons muçulmanos que submetem outros muçulmanos e lhes impõem a sharia no deserto do Sahara.
tumbuktu
Com um olhar feminino muito intenso (Kessen Tall é a coguionista e produtora executiva), o filme, dotado de uma belíssima fotografia e rodado em esplêndidas localizações, tem uma admirável contenção emocional. O relato é tão sóbrio como as personagens, interpretadas sabiamente por atores profissionais e outros que não o são. A forma de abordar o horror do sequestro de toda uma região - sem espaventos, sem sublinhados - é impressionante.

Com sequências notáveis, como a do desafio de futebol; e a entrada da polícia islâmica de moto na cidade a comunicar por megafone as normas que proíbem a música, os cigarros, o livre-trânsito, e que impõem padrões de indumentária; ou o pedido de casamento do desalmado e prepotente miliciano... Sissako manifesta um talento invejável; os seus recursos têm uma pureza de linguagem que comove na sua veracidade.

A decisão de colocar no centro do relato uma família de pequenos ganadeiros tuaregue (Kidane, a sua esposa Satima e a filha Toya) é muito inteligente: consegue que o filme tenha uma estrutura muito sólida.

Alberto Fijo

*(V: violência)